terça-feira, janeiro 02, 2018

OS MELHORES DO ANO, OU O MÁXIMO QUE EU CONSEGUI ME LEMBRAR

Admito que gosto de criar pequenas listas identificando o que de melhor foi lido/ouvido/visto ao longo do ano. Nessa época costumo ainda ler algumas de sites que tenho certa estima na esperança de ser apresentado há algo interessante que tenha passado desapercebido. Na vã esperança de realizar algo similar, dessa vez, antes mesmo de começar a digitar o post, sabia que a memória não teria muito com o que colaborar.

Na literatura, li bastante coisa no kindle, li menos em comparação no papel, mas não houve nenhuma leitura tão significativa que a tornasse a Melhor do Ano ao ponto de nesse momento identifica-la mentalmente. Além disso, muitos insones momentos noturnos foram preenchidos pelo kindle salvador e a memória poderia muito bem trair a ideia de que algo que eu havia lido no inicio do ano na realidade não fizesse parte de meados de 2016 ou até antes. Difícil estabelecer a cronologia correta. Em todo caso, meu grande feito literário desse 2017 que se foi não resta nenhuma dúvida: na segunda tentativa após anos da fracassada primeira, terminei Crime e Castigo. Nova tradução e a boa edição da Editora 34 ajudaram demais na empreitada. Já, meu livro do ano foi de Elena Ferrante. Seu Dias de Abandono rendeu sugestões minhas para que pessoas próximas o lessem, rendeu muito trechos sublinhados, rendeu significativa imersão na abandonada e ferida personagem, rendeu outros livros lidos na sequencia da mesma autora e foi a mais recompensadora leitura desse ano.

Na música, sigo tendo a fiel companhia do meu mui selecionado feed do Mixcloud e da Swiss Classic no Tune In. Por isso não sofri com mais um ano onde a quantidade de álbuns interessantes que ouvi seguiu, conforme o ano anterior, em franco declínio. Todavia, o Arcade Fire lançou o delicioso Everything Now que durante incontáveis vezes foi a minha trilha sonora enquanto descia ou subia a serra, seja pelo sinuoso caminho de asfalto, seja pelo infernal mix de chão batido com cascalho. Bem diferente em estilo e atmosfera ao primeiro e já clássico Funeral. Tão bom quanto.

A série do ano foi indiscutível: Twin Peaks The Return.
Que experiência gratificante foi essa. Pra possibilitar a compreensão necessária da história, tive de ir atrás das 2 primeiras temporadas de 20 e poucos anos atrás, sendo arremessado a uma miscelânea de personagens, tramas, ambientes e situações tão formidavelmente incomuns que não houve como deixar de concluir o enorme número de episódios em um período de tempo recorde. Mesmo o nonsense profundo demais de alguns trechos não tiraram o brilho desse magnum opus Lynchiano.

Um ano de séries, não um ano de filmes. Não devo ter assistido um número tão pequeno desde muito, muito tempo atrás. Conforme a situação da literatura, não é fácil assinalar O Filme de 2017 em letras maiúsculas sem antes chafurdar um pouco na memória. Feito isso, e com um leve empurrãozinho do google, lembrei da atuação fantástica de Jeff Bridges e do seu formidável Hell or High Water que consigo com convicção plena eleger como a grande obra assistida em 2017.

quinta-feira, dezembro 28, 2017

O ANO DO DESAPEGO

Nenhuma ocasião anterior havia contido tantas doações e vendas de itens pessoais como esse quase findado 2017.
Desde um reles microondas antigo, um x-box que nem tão utilizado foi, roupas as mais variadas, um crocs maior que meu pé, passando por camisas de times argentinos que eu nunca havia vestido e jamais vestiria, camisas do meu colorado que antes haviam sido motivo de tanta dedicação em obter e enorme esmero em guardar, chegando, aí sim, as centenas de revistas em quadrinhos que moveram minha infância e juventude de uma maneira que agora parece até difícil de acreditar.
Havia um envolvimento que ia desde o acompanhamento habitual das tramas e histórias até a admiração profunda do item em si, as edições encadernadas, com papel especial, o formato americano, a coleção completa, uma a uma, mês após mês.
Os comics me levaram a aprender html e a construir um site sobre o assunto no fim da década de 90 em meio a conexão discada e a lentidão profunda do tráfego na rede. Um longo tempo dedicado a algo cuja retribuição era meramente pessoal, sem ganhos se não um e-mail contente de algum leitor, um dialogo com alguém tão interessado quanto eu nos instant messengers da época, a satisfação em observar o número de visitantes e até uma coluna própria, pasmem, num site que também tratava de comics e formava uma espécie de parceria com o meu, saudoso, HQ Brasil.
Havia uma paixão (mau traduzindo o sentimento) envolvida nisso que hoje me causa saudade. Uma época que só é feliz quando contemplada pelas lentes embaçadoras da nostalgia, diria Theodore Dalrymple. Acho difícil discordar, mas havia um entusiasmo genuíno que hoje, lamento, não consigo recuperar para qualquer tipo de interesse ou atividade. Será o natural desenrolar da vida adulta? Difícil dessa vez afirmar.
Foi via mercado livre que encontrei um bem aventurado cidadão que tratou de levar a coleção inteira das revistas acumuladas ao longo da vida. A ultima remessa somou quase 30kg em duas caixas, se tornando uma tarefa incômoda inclusive levá-las até a agência dos correios. Uma divida baseada na confiança parcelada em inúmeras vezes e no fundo, o profundo desejo de que as centenas de edições ao invés de ficarem escondidas e acumulando poeira dentro de algum armário, sirvam para agradáveis leituras e possam quem sabe despertar o mesmo efeito que tiveram sobre mim cerca de 20 anos atrás. Acredito demais nisso.

domingo, outubro 29, 2017

THE SIMPLICITY OF RUNNING


Aproveitando a referência imediata ao post anterior, considerei ótimas demais as palavras de Wayne Hemingway (desconheço quem seja) em publicação inglesa disponível no Issuu

OS PATÉTICOS QUE CORREM

Considero temas relativos a running, a corrida, ao hábito de correr, muito interessantes, não apenas a prática em si mas também me atrai o que há por trás, termos cientificos, a técnica e psicologia, além, claro, as competições e disputas do atletismo em geral. Em resumo, gasto um tempo razoável lendo sobre isso na web e não raro assisto maratonas inteiras na televisão com certa satisfação (que tem diminuído bastante ultimamente, mas isso se estende a praticamente todos os esportes televisionados). Em termos de diversão, a semana de track and field nas Olimpíadas só perde para a Copa do Mundo de futebol e o hors concours que se desenrola nesse instante: o mês de outubro do baseball e sua sempre insana pós-temporada.
Escrevo essa introdução pra contextualizar o seguinte: o conteúdo que acompanho sobre corrida e atletismo em geral não abrange um outro lado desse mesmo tema, disseminado de maneira viral na internet, aparentemente não apenas no Brasil: os blogs dos corredores. Salvo uma ou outra exceção (em português considero ótimo o Recorrido) procuro fugir deles, mesmo que reconheça que devem existir valiosos endereços. Um texto publicado no Wall Street Journal com o título OK, You're a Runner. Get Over It, rendeu um bocado de comentários. Nele, Chad Stafko comete inúmeros erros de apreciação, generaliza os corredores como um único aberrante grupo de pessoas, uma massa humana patética, insinua que tratam-se de algo equivalente a verdadeiros retardados do asfalto:

I have a theory. There is no more visible form of strenuous exercise than running. When runners are dashing down a street in the middle of town or through a subdivision, they know that every driver, every pedestrian, every leaf-raker and every person idly staring out a window can see them.

Dias depois, um dos integrantes da Runner's World americana escreveu um texto que tratava de maneira sarcástica os escritos de Chad Stafko, estabelecendo traduções para as frases contidas no texto original. O resultado foi igualmente um desastre. A ironia não funcionou de maneira nenhuma e o que restou produziu apenas constrangimento.
Stafko tocou num vespeiro. Em blogs como esse, o comportamento padrão dos corredores em agir como se fizessem parte duma honorável seita digna de admiração por todos os demais, fica bem evidente nos comentários. Todavia. Beth Risdon, a proprietária do mesmo blog escreveu uma carta em resposta e creio que tenha feito um ótimo trabalho:

What you don't get is that most people are literally running for their lives and for the lives of others. They are running to overcome illness, to support charities, to deal with tragic loss, divorce, obesity, mental health diagnoses, heartbreak, getting older, stress and addiction, to stay strong and healthy as they age, to avoid therapy. They are running to feel alive and to therefore be better wives, mothers and friends.

Sem superestimar os corredores, ou trata-los de maneira distinta e especial, mas mencionando a importância que cada um dispensa a pratica, a forma com que a corrida auxilia no mero desenrolar do cotidiano, tornando-o mais suportável.
Desconheço melhor maneira, por exemplo, de lidar com o tédio, tornar o dia-a-dia menos angustiado e ansioso. Em suma, não saberia viver sem.


P.S.: o enunciado acima só para comentar que voltarei a falar sobre corrida na sequência. Durante esse 2017 corri duas maratonas e elas possuem ambas suas histórias para contar.

segunda-feira, outubro 23, 2017

DO HÁBITO DE TER DE SE POSICIONAR E A URGENTE ÚLTIMA POLÊMICA

De fato há um modo jornalístico de seguir vivendo: atuais como nunca, temos nos esmerado em portar a urgência, comentar aquilo que se publicou minutos atrás; demonstrar nossa indignação ou anuência às falas que reverberam, incipientes, a emoção do momento. Como partidários de causas e pessoas, não nos furtamos ao sacrossanto direito de opinar e marcar um território que julgamos sempre necessário. Nada deve escapar ao nosso ímpeto de exterioridade – espaço onde transcorre, desde então, a maior parte de nossas vidas agitadas.

Daqui.

quarta-feira, abril 19, 2017

O INDIVÍDUO

O Pedro Sette-Câmara retomou o seu O Indivíduo, que na década anterior, bem antes dos textões de facebook e da polarização ideológica contemporânea - especialmente no âmbito virtual - foi um dos sítios onde eu encontrava textos de assuntos interessantes (ou nem tanto) sempre envoltos numa aura intelectual/cultural rigorosa. Outros que escreviam nos Wunderblogs também proporcionavam essa mesma sensação: um padrão mais elevado, que eu traduziria como um espaço sereno, limpo, inteligente e elegante, distante do ruído e da gritaria dos arredores. Havia algo nesses locais desconhecidos da web pelo Grande Público que era recompensador demais, mesmo que autores/referências/assuntos citados pudessem passar muito a margem do meu interesse ou conhecimento na época e mesmo agora. Sem contar o alivio de encontrar essa gente que, de tão incomum que eram pela inteligencia e viés conservador, soavam subversivos no pântano dos blogs pessoais.
Passados inúmeros anos ele escreve parágrafos em seus posts de (re)abertura que me parecem como a perfeita descrição do que seguem sendo os principais elementos que proporcionam prazer em manter e vez em quando até escrever no próprio blog.
Seja bem vindo de volta Sette-Câmara, o Sr. fez falta.

Estranhamente, vinte anos depois, volto a sentir a mesma coisa que motivava a mim e a meus amigos: a vontade de ler algo escrito por uma pessoa, sem jargão, sem um tom impessoal, e, hoje, sem comprometimento com algum posicionamento pré-estabelecido, sem polarização, sem polimento à base de clichês.

Os anos passam, a água corre debaixo da ponte Mirabeau, e o formato do post de blog me parece mais adaptado a um tom de conversa, à fala relaxada de quem no entanto preza um certo rigor (mesmo que esteja sinceramente equivocado). Ouso dizer que isso, hoje, soa até ligeiramente subversivo: escrever porque sim, por puro gosto da conversa, por puro gosto do idioma.

SOFRA ACOMPANHADO

“Misery loves company,” she says. So if you’re going to suffer, at least suffer collectively.

O contexto dela extraído daqui, se refere ao sofrimento dos "tiros", o sempre exorcizante treinamento intervalado, mas a frase é ótima demais e se relaciona perfeitamente a inúmeros aspectos da vida.

sexta-feira, março 03, 2017

FORMAÇÃO

Vejo um sinal amarelo se acender quando leio uma análise que aponta como um defeito (por exemplo) as referências numerosas e a prosa cansativa do autor. Às vezes há fundamento, claro, mas nem sempre o problema está no livro. A diferença entre o hermético e aquilo que a gente ainda não consegue alcançar nem sempre é visível. 

Até certa idade, nosso único objetivo é engolir o máximo de informações processadas a fim de vomitar tudo no vestibular. A busca genuína é uma ideia ultrapassada. Abandonamos a ideia de formação.
Porque, ao contrário do que se pensa, a dedicação aos livros raramente admite a ideia de superioridade. Ela exige que a gente reconheça as dimensões da nossa limitação.

Pequenos trechos de um belo texto escrito pela von Holdefer.

domingo, fevereiro 19, 2017

FOR ALL WE KNOW, THIS IS A ONE WAY TRIP

My life felt stuck. So I decided to run. It was my natural response. I just wanted to get away. I laced my shoes and started running — by the time I came back, I felt tired and energized at the same time. I knew I was on to something.
Every time life became difficult I would give up. When I wanted to travel the world after college, I decided that I did not have money — so I told myself I should save money. Years passed, and that round-the-world trip never happened — I was scared to be away from home for a long time.
Now, when life is difficult, my response is different — I love the pain and struggle instead of shy away from it. I owe this to running.
And the best thing about running is that is easy to start. You just go. You decide when, where, and how fast.
To me, running is exactly as life. It’s hard, you do not always want to do it, summers are better than winters, and you feel better when you have new shoes. But it’s worth it. After the pain comes happiness, both in life and in running. That’s why my life is moving forward again — I’ve never stopped running for a day. You should try it too.
Daqui.

Isso tudo pra introduzir a notícia: me inscrevi numa maratona pra esse primeiro semestre.