quarta-feira, julho 15, 2015

EU TE AMO

Por mais frio, reprimido ou sexista que meu pai pudesse parecer pelos padrões contemporâneos, sou-lhe grato por nunca me ter dito com todas as letras que me amava. Meu pai adorava a privacidade, o que significa: ele respeitava a esfera pública. Acreditava em reserva, protocolo e razão, pois, sem tais predicados, ele achava que seria impossível à sociedade debater e tomar decisões que melhor atendessem a seus interesses. Teria sido bom, sobretudo para mim, se ele tivesse aprendido a demonstrar mais seu afeto por minha mãe. Mas cada vez que ouço pais e filhos gritando seus eu-te-amos no celular, sinto-me um homem de sorte por ter tido o pai que tive. Ele amava os filhos mais que tudo. E saber que ele sentia isso mas não conseguia expressar em palavras; saber que ele podia confiar que eu sabia disso e não tinha expectativa de que ele declarasse seu amor: aí estão a essência e a substância do amor que eu sentia por ele. Um amor que eu também, da minha parte, tive o cuidado de nunca lhe declarar.

Página 56 de "Como ficar sozinho", do Jonathan Franzen pela Companhia das Letras.


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terça-feira, maio 05, 2015

MISSÃO NENHUMA

Meses e meses sem nada postar, sem nada escrever. Vai passar. Enquanto isso, resta sugerir (boa) leitura:

Não há “missão” na vida. Viver segundo os prazeres do trabalho, da mesa e do corpo da mulher é tudo que podemos fazer. O puro prazer de existir.
Sem excessos, do contrário, nos tornamos escravos do trabalho, da mesa e do corpo da mulher.
Não porque uma danação eterna nos espera (ninguém nos vigia), mas porque o excesso do desejo destrói seu próprio usufruto na medida em que nos desesperamos com a possível falta do objeto desse desejo.
Dito de forma simples: não queira pegar todas as mulheres do mundo, mas cuide bem daquelas que, por graça da contingência, vierem a sua cama.


Daqui.

quarta-feira, setembro 03, 2014

O DRIBLE

Aplicada com o atraso de uma vida, a estratégia de Murilo, se é que se tratava de algo tão deliberado, era a mesma empregada por sucessivas gerações de pais brasileiros para se aproximar dos filhos. Muita coisa distancia vida afora pessoas que se contemplam sobre um abismo de vinte ou trinta anos — música, moda, política, costumes, tecnologia —, mas “são praticamente indissolúveis os laços forjados na infância em torno das cores de uma camisa, do culto a ídolos vivos ou mortos, do frenesi terrível de se apertarem lado a lado entre milhares de seres humanos reduzidos a uivos primais, o menino de todas as épocas sentindo no estômago o pavor de ser engolido pela multidão e encontrando na presença do pai a segurança necessária para se perder em algo maior do que ele sabendo que, no fim da partida, fará o caminho de volta.


Após fracassar miseravelmente num Dickens, milagrosamente terminar um Eugenides, enfim estou lendo O Drible, do Sérgio Rodrigues, encontrado numa versão em epub na web. Não indicarei o link em virtude de gostar das obras do autor e desejar que o restante do público contribua com ele adquirindo seus títulos ao invés de baixa-los gratuitamente na internet.



Na realidade, não: eis o link pra obra e leiam, pois ele é muito bom, mesmo. Mal aí, seu Sérgio.

sábado, agosto 09, 2014

DAQUI 1 SEMANA

Semana passada imprimi minha maior distância não disputando uma prova. Fiz aproximadamente 34km, com a intenção de verificar se algo saia fora do lugar, se uma cãimbra traiçoeira se apresentava, se o tênis já gasto definhava, enfim, se eu conseguia cumprir com o trajeto, distante apenas poucos km dos almejados 42 da maratona do próximo final de semana.
Deu certo, o único senão foram assaduras nas virilhas devido a eu ter ignorado a vaselina salvadora. Julguei que não seria necessário e paguei o preço por isso. O cansaço, a estafa, uma pequena dor aqui e ali, um prenuncio distante de câimbra, tudo isso aconteceu, mas o percurso de altimetrias variadas e exigentes dificultava a tarefa, algo que não irei encontrar no próximo domingo em Florianópolis.
Com a impossibilidade de precisar o quão preparado estou, e para que tempo estou preparado para concluir o percurso, me resta mirar nas sub 4h, e sonhar com uma sub 3h45min. Menos de 3h30min é um delírio que eu não me permito almejar.

sábado, agosto 02, 2014

CONTRA UM MUNDO MELHOR

Em matéria de sentido, prefiro os antigos: Deus, a fidelidade, a castidade, a culpa, a disciplina, a família, o medo, Shakespeare, a Bíblia, a Ilíada. Rejeito todos os novos sentidos: a democracia como religião moderna, a revolução sexual, que não passa de puro marketing de comportamento (continuamos a mentir sobre o sexo e a ser infelizes), a sustentabilidade (nova grife para o ambientalismo), a cidadania, a igualdade entre os homens, uma alimentação balanceada, o fascismo dos direitos humanos, enfim, tudo o que os idiotas contemporâneos cultuam em seu grande cotidiano.

Do Luis Fernando Pondé.

E aqui, trecho do post do Constantino sobre How to Think Seriously About the Planet, obra mais recente do mestre Roger Scruton :

O autor descarta as “soluções” radicais daqueles que sempre se imaginam no comando das coisas, no poder global, sem levar em conta outros valores, tais como as liberdades individuais. Para Scruton, os esquemas globais propostos pelos ambientalistas ignoram inúmeras peculiaridades de cada povo, assim como representam uma ameaça à democracia.
O apego ao território e o desejo de mantê-lo protegido da erosão e do desperdício representam poderosos motivos para sacrifícios pessoais voluntários. Scruton descreve tal sentimento como oikophilia, que vem de oikos, ou da ideia de “amor ao lar”. Isso seria bem mais impactante do que “salvar o planeta”, algo extremamente abstrato. 

quinta-feira, junho 12, 2014

ELOGIO DO ANO

Cedo ainda para afirmar, mas me parece que nada poderá ir além disso nesse 2014.


adoro que muito além de tomar mate, muito mate e escutar AM para dormir, até sua preferência de sobremesa tem um ar senil, galvin.

Via troca de mensagens com a Natalie em janeiro, no facebook.

sábado, junho 07, 2014

NOSSO NÚMERO 9

O crescimento do Internacional muito se deveu a ele. Suas atuações no segundo semestre de 2004, como um meia, diferente do posicionamento dele nos anos que viriam a seguir, foram as melhores em toda a trajetória desse mítico jogador pelo Inter. Me recordo, quando da lesão que ele sofreu num dos enfrentamentos que antecederam o jogo contra o Boca Juniors, na Sul-Americana daquele ano, que ali, naquele instante, não havia esperança pra equipe na competição. O time dependia dele, sem ele não possuíamos força pra vencer obstáculos maiores. De 2005 em diante, é história fácil de ser contada, empilhando títulos, servindo como alicerce mor de um time que fez o que não se imaginava ser possível, até então.
A mais marcante entrevista que ouvi dele, foi após a segunda partida da semi-final da Libertadores de 2006. Ainda em campo, ao término do jogo, após ter marcado um dos gols da vitória, o repórter se aproxima e pergunta sobre o que poderia se esperar da decisão contra o São Paulo, que ocorreria na próxima semana. Impossível me recordar das suas palavras, mas a mensagem era de que se podia ir além, o caminho estava ainda por ser trilhado, haveria o respeito pela equipe adversária (naquela altura detentora do titulo da Libertadores e Mundial), mas de maneira alguma o medo. Daria o sangue pela vitória, em resumo. Eu, aterrorizado pela idéia de fracassarmos, tendo ido tão longe. Ele, convicto que poderiamos vencer. E vencemos.
Muito obrigado por tudo, Capitão.


Uh, Terror, Fernandão é Matador

quinta-feira, maio 15, 2014

A MARATONA DE 2014

Meu boicote ao CORPA e os seus comparsas, impedirá que eu corra a Maratona de Porto Alegre até o fim dos tempos. Por esse motivo, já havia setado o destino perfeito para os 42km desse 2014: Foz do Iguaçu. Encontrei pouso na casa de um ex-colega da vida marítima, iria me inscrever e já adquirir tickets aéreos quando me deparo com a informação de que não haverá a prova nesse ano. Utilizando a Copa do Mundo como desculpa, a organização promete que tudo sairá conforme o planejado. Em 2015.
Rápida procura pela web, e eis a grata surpresa: a Maratona de Santa Catarina ocorrerá no meio de agosto e se tornou o meu alvo desde já. A possibilidade de ir de automóvel próprio, hospedar-se na casa de algum conhecido - e por lá eles existem - fez do plano B uma formidável escolha.
Inscrição realizada, convite feito para amigos corredores e resta agora, tratar de resolver pequenos problemas de ordem física, não unicamente o treinamento em si, mas um desconforto sob o peito do pé esquerdo, que vem causando estragos já fazem mais de 2 semanas. Depois de amanhã restarão exatos 3 meses pra prova, tempo mais que de sobra para chegar lá bem. Sobrando.

segunda-feira, abril 21, 2014

PETRIFIED FOREST

Desconheço exatamente o motivo incentivatório, mas passados alguns anos, fiz novamente o download de Honey Moon, oitavo álbum da Handsome Family (grupo que produziu a trilha de abertura do extraordinário True Detective), e uma vez mais me encontrei com a canção que dá titulo a esse post. Desde ontem, tendo ouvido-a uma dezena de vezes, convido-os a ouvi-la e acompanhar a letra, que segue abaixo. Como fracassei em encontra-la no youtube ou qualquer outro lugar recôndito da web, segue o link para o torrent desse álbum. Vale, muito, a pena.


When we were together I lay in your river
As the fish swam through my hands
Raindrops and roses fell from the heavens
Just to brush against your skin
And a strand of your hair lost to the wind
Sent doves wheeling through the air

But now I'm alone in the petrified forest
Stumbling on rocks in the dark
But I remember, I still remember
When you held me in your beautiful arms
When you left me alone the sky turned to stone
And my legs rolled into the sea
Why did you go? The sea was so cold
My arms blew off in the breeze
I search for your footprints, the scent of roses
As the wind weeps over the sea

But now I'm alone in the petrified forest
Stumbling on rocks in the dark
And I remember, I'll always remember
When you held me in your beautiful arms