"All men may not be brothers, but that's the way it feels after a marathon. You feel - you can't help but feel - that you all understand each other."
É isso. É exatamente isso, Ben Cheever.
Quarta-feira, Junho 17, 2009
Terça-feira, Junho 16, 2009
DAS TREVAS
A depressão - essa gosma densa e negra do desalento - estava longe de ser uma novidade na minha vida. Desde a infância vinha batalhando contra ela, como se ao sair do ventre me tivessem envolvido num cobertor cinzento e áspero, em vez da manta de algodão macio, em tom pastel. Não acho que tenha sido um bebê triste, a julgar pelas fotos em que apareço com um ar moleque, os olhos brilhantes e sorriso aberto. Ainda assim, quem sabe se já não estava adotando a máscara de bem-estar que todo deprimido aprende a usar para poder navegar pelo mundo?
Uma pergunta sempre me intrigou: como era possível que ninguém fosse capaz de adivinhar esses terríveis desdobramentos só de olhar para você? É enfurecedor constatar que a depressão grave, por mais que seja tratada como uma doença, não emite sinais claros que os outros consigam captar. A dor psicológica é terrível, mas não tem como ser provada, não há feridas abertas vertendo sangue. Seria tão simples se você pudesse engessar a mente, como se fosse um tornozelo quebrado, provocando murmúrios de solidariedade que substituiriam o ceticismo ("Você não pode estar se sentindo tão mal assim...") e, em alguns casos, a hostilidade declarada ("Talvez se parasse de pensar o tempo todo só em você...").
Daphne Merkin e os seus relatos de congelar a espinha acerca do monstro chamado depressão. Negritos por minha conta. Leitura integral no site da Piauí.
Uma pergunta sempre me intrigou: como era possível que ninguém fosse capaz de adivinhar esses terríveis desdobramentos só de olhar para você? É enfurecedor constatar que a depressão grave, por mais que seja tratada como uma doença, não emite sinais claros que os outros consigam captar. A dor psicológica é terrível, mas não tem como ser provada, não há feridas abertas vertendo sangue. Seria tão simples se você pudesse engessar a mente, como se fosse um tornozelo quebrado, provocando murmúrios de solidariedade que substituiriam o ceticismo ("Você não pode estar se sentindo tão mal assim...") e, em alguns casos, a hostilidade declarada ("Talvez se parasse de pensar o tempo todo só em você...").
Daphne Merkin e os seus relatos de congelar a espinha acerca do monstro chamado depressão. Negritos por minha conta. Leitura integral no site da Piauí.
Quarta-feira, Junho 03, 2009
MARATONA DE SP
A síntese desse post seria algo como foi, até aqui, a prova mais dura que encontrei pela frente. Não é exagero, tão pouco superestimar algo. As maratonas anteriores, os revezamentos, nada, nada mesmo, foi tão severo como os 42km do último domingo.Interessante ressaltar que a preparação dessa vez não foi maior nem menor do que nas oportunidades passadas, embora reconheça que não aguardava pelo tamanho da pedreira que me foi imposta.
Ao término de tudo, já sentado na graminha do Ibirapuera devorando o habitual lanche servido pela organização no pós-prova, a comprovação que poucas experiências são tão recompensadoras e dotadas de sentidos e significados individuais tão especiais como a conclusão de uma maratona. O cansaço era grotesco, mas a satisfação sobrepujava-se enormemente. Tem sido assim, e é isso que me move pra fora de casa a treinar horas e horas por semana para reunir o condicionamento suficiente para a sempre hercúlea tarefa.
Pouco depois o destino tratou de interceder, o acaso deu o ar da sua graça e, quase sem querer, consegui pegar uma carona com um corredor ali mesmo, para instantes depois ser deixado a 100m do Morumbi. A tarde ainda me reservava a pelada entre São Paulo e Cruzeiro, mas isso não é assunto pra agora.
Domingão de luxo.
* A foto é da webrun.com.br.
Quarta-feira, Maio 20, 2009
DISSOLVER-SE
O que eu quero é o breu da noite como condição, como algo no qual eu possa afundar e me dissolver; o que eu quero é que a escuridão se infiltre nos meus olhos e que o meu corpo saia flutuando para que deixe de ser tão nítido, ou tão importante quanto ele me costuma parecer, a ponto de, devo admitir, eu me pegar escutando os seus sinais como um monomaníaco ou um hipocondríaco; o que eu quero é dissolver um pouquinho a fronteira entre corpo e não-corpo, talvez consumar uma tênue osmose ali onde começa um e termina o outro; borrar. É o que eu quero quando estou farto de mim mesmo, do meu rosto no espelho, das palavras que ponho na tela, farto do gosto metálico que sinto na boca ao me representar dia após dia, quando a relação proporcional entre eu e eu é de 1:1, só que não exatamente, e o asco e o desdém por mim mesmo vazam pelas fissuras na borda, ali onde a discrepância impede que a fita adesiva da vida grude como deveria.
Per Petterson, daqui.
Per Petterson, daqui.
Terça-feira, Maio 19, 2009
BENEDETTI
Tinha um post engatilhado desde término de fevereiro sobre A Trégua, um pequeno grande livro de pouco mais de 150 páginas que narra o envolvimento de um velho próximo da sua aposentadoria com uma colega de muitíssima inferior idade. O livro é triste. Ao menos a minha leitura, a absorção do texto, ocorreu dessa forma. As passagens em que o velho demonstrava não ter conseguido digerir a morte da sua esposa são parágrafos tão valiosos quanto aniquilantes. Impossível sair ileso da leitura dessa obra, e um misto de preguiça e procrastinação impediram a publicação dos almejados relatos. Hoje, a notícia infeliz que cabe ser dada, até como uma espécie de homenagem, é a do falecimento do seu autor.
O uruguaio Mario Benedetti morreu no último domingo. Do seu retrato escorre e é nítida a impressão de que se tratava duma formidável criatura:
O uruguaio Mario Benedetti morreu no último domingo. Do seu retrato escorre e é nítida a impressão de que se tratava duma formidável criatura:
Segunda-feira, Maio 04, 2009
O RETRATO DO CINEMA COMO LIXO
É o sub-produto perfeito para ilustrar o denominador comum de um tipo de cinema atual feito para vender pipoca, balinha, nachos e refrigerante, para um público com cera nos ouvidos e limite programado de atenção de não mais do que quatro segundos.
Não raro assisto a filmes reconhecidamente ruins do gênero de super-heróis, motivado por aquela curiosidade intrínseca a qualquer fã de comics que continua ou não lendo HQ's. Fiz o download da versão ainda não integralmente finalizada de X-Men Origins - Wolverine em nome de algum dos 3 filmes dos X-Men lançados a alguns anos atrás. Não lembro qual, mas ao menos um deles me agradou bastante e havia um resquicio de fé na hipótese desse efeito se repetir. Mas claro, isso não aconteceu. Dessa vez, extravasaram no erro. Kleber Mendonça é o dono do comentário em itálico acima, tirado daqui, e que ilustra magnificamente o pior filme que assisti nesse 2009. Após ver Pink Panther, com Steve Martin, e How to Lose Friends and Alienate People, uma bomba que eu julgava insuperável, nem nos piores pesadelos imaginava poder ser exposto a alguma obra de qualidade ainda mais rasteira num período tão breve de tempo. A 20th Century Fox surpreende, e me mostra que o fundo do poço é um pouco mais adiante.
Não raro assisto a filmes reconhecidamente ruins do gênero de super-heróis, motivado por aquela curiosidade intrínseca a qualquer fã de comics que continua ou não lendo HQ's. Fiz o download da versão ainda não integralmente finalizada de X-Men Origins - Wolverine em nome de algum dos 3 filmes dos X-Men lançados a alguns anos atrás. Não lembro qual, mas ao menos um deles me agradou bastante e havia um resquicio de fé na hipótese desse efeito se repetir. Mas claro, isso não aconteceu. Dessa vez, extravasaram no erro. Kleber Mendonça é o dono do comentário em itálico acima, tirado daqui, e que ilustra magnificamente o pior filme que assisti nesse 2009. Após ver Pink Panther, com Steve Martin, e How to Lose Friends and Alienate People, uma bomba que eu julgava insuperável, nem nos piores pesadelos imaginava poder ser exposto a alguma obra de qualidade ainda mais rasteira num período tão breve de tempo. A 20th Century Fox surpreende, e me mostra que o fundo do poço é um pouco mais adiante.
Quarta-feira, Abril 22, 2009
O ADULTÉRIO COMO ESTÍMULO
"O que estimula todos os nossos avanços tecnológicos é o adultério: criou-se a internet, o celular, criaram-se as mensagens por telefone unicamente para que todos os casais possam viver com facilidade as suas vidas paralelas. (...) Está tão minado o terreno da fidelidade que a questão, para os casais, não mais é saber se o outro o trai mas sim com quem o outro o trai.".
David Foenkinos, no seu Em Caso de Felicidade, daqui.
David Foenkinos, no seu Em Caso de Felicidade, daqui.
Quinta-feira, Abril 16, 2009
A MENINA MÁ
Travessuras da Menina Má, de Vargas Llosa é, desde já, a melhor leitura que realizei nesse ano. Comprado de forma precipitada numa Feira do Livro de anos atrás, logo que a editora Alfaguara chegou ao Brasil, mantive-o adquirindo poeira na estante pois não nutria nenhuma esperança de nele encontrar algo que me fizesse, por exemplo, dispensar a ele esse post. Ledo engano. Não fosse a preguiça, deveria trazer até aqui, ou mais propriamente ao blog de trechos, alguns parágrafos brilhantes encontrados nas pouco mais de suas 300 páginas. Posso com segurança afirmar que não havia me deparado antes com uma uma obra que contasse com tantos trechos que me dispensassem uma torrente de sensações da mais pura excitação. Coisas visceralmente sexuais, que me obrigavam a respirar fundo e lidar com uma ereção que irremediavelmente surgia. Uma delicia, lógico, mas algo também inusitado, reconheço.
Mas não só os trechos de cunho sexual, a história melindrosa de idas e vindas e o desfecho formidável com que o autor peruano finalizou uma obra que, aparentemente, traz muito de autobiográfico (não que isso possua importância, não possui), fazem de Travessuras da Menina Má uma das mais preciosas peças da minha estante, uma das melhores experiências literárias que já tive.
Mas não só os trechos de cunho sexual, a história melindrosa de idas e vindas e o desfecho formidável com que o autor peruano finalizou uma obra que, aparentemente, traz muito de autobiográfico (não que isso possua importância, não possui), fazem de Travessuras da Menina Má uma das mais preciosas peças da minha estante, uma das melhores experiências literárias que já tive.
Terça-feira, Abril 14, 2009
DO SUICÍDIO
Costumo explicar a tal pessoa que os pacientes repetidamente me contam como estão felizes pelo fato de não terem conseguido matar-se. Semanas, meses, anos mais tarde, dizem-me eles, descobriram que havia uma solução para seus problemas, uma resposta a sua pergunta, um sentido para suas vidas. "Mesmo que a chance de que as coisas melhorem seja apenas uma em mil" continua minha explicação, "quem pode garantir que no seu caso isso não acontecerá, mais cedo ou mais tarde? Mas em primeiro lugar você tem que viver para enxergar o dia em que isto pode acontecer, precisa sobreviver para ver nascer aquele dia, e, de agora em diante, a responsabilidade da sobrevivência não o deixará mais."
Viktor Frankl, do seu Em Busca de Sentido, iluminando tudo.
Viktor Frankl, do seu Em Busca de Sentido, iluminando tudo.
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