terça-feira, março 03, 2026

TRÊS ASSUNTOS

O melhor título para esse post seria O não rebaixamento, a viagem a Maceió e o show do AC/DC, a relação cósmica sobre isso tudo. Desconfio que haja relação alguma nesses 3 eventos, o critério estético também não ajuda, mais se assemelhando a um breve parágrafo do que qualquer outra coisa. Em resumo, ele jamais foi uma opção, mesmo que devesse.
O atraso da publicação desse texto, que reúne mais conteúdo do que deveria, é culpa especialmente da desorganização do seu autor, que em sua defesa alega que os dias foram se somando e a vida, essa danada, não parou de acontecer.

Começamos: início de dezembro último, o Internacional havia se metido numa situação tão horrenda que na rodada final da competição necessitava além da própria vitória, uma reunião de resultados dos seus adversários. Era possível, mas não era provável. O domingo era de muito calor e continha, o tempo inteiro, a aterradora aproximação das 16h, o horário do início da partida. Não tinha intenção de assistir o jogo, mas sabia que seria inviável ficar alheio a ele. O Internacional é, e conforme ficou bem claro nesse dia, algo incontornável na matriz da minha vida. O dia anterior, um sábado igualmente escaldante, tinha marcado o último encontro da turma dos pais da criançada que estava concluindo a pré-escola. De maneira inusitada eu havia me tornado próximo a várias pessoas que teriam seus filhos, em questão de menos de dois meses, estudando em diferentes locais. Uma separação brusca para uma turma que estava junta praticamente desde o berçário.
Não me recordo como se configurou o início da tarde, de alguma maneira fomos até o clube de piscina da cidade sozinhos, minha mulher e eu. A filha menor tinha ido mais cedo com a avó e já havia partido deixado o clube enquanto a mais velha devia estar envolvida noutra programação. Irmos no formato casal correspondia a possibilidade de ficarmos menos preocupados, cada um imerso nos seus próprios interesses ou apenas suportando o tédio embaixo do sol, sem o receio de uma criança cair, escorregar ou até se afogar. Em contrapartida, cada minuto durava o dobro do tempo para passar.
A partida contra o Bragantino teve início enquanto eu fazia exercícios na academia climatizada desse mesmo clube na clara intenção de permanecer o máximo possível alheio à realidade. O relógio devia ter alcançado uns 20min quando eu deixei o lugar abrindo a porta e instantaneamente sendo abraçado por uma sensação térmica que se aproximava dos 40 graus. No caminho até a mesa que abrigava nossos pertences pude observar de soslaio o placar ainda zerado na imensa televisão que transmitia a partida para uma meia dúzia de pessoas que eu não sabia ao certo se torciam contra ou a favor do Colorado. Jamais me atreveria a se juntar a eles. Estava num estado de nervos tamanho que anularia qualquer chance de participar de interações como essas.
Permaneci sentado olhando ao redor e tentando disfarçar o horror interior que eu experimentava. Sabendo que a ansiedade apenas iria disparar ainda mais, não abri o aplicativo de resultados no celular. Desconhecia o placar até o instante que percebi, distante uns 15 ou 20 metros um cidadão com um boné do Inter sobre a mesa comemorar. Fiz gestos perguntando o que tinha ocorrido e deu pra entender a mensagem: tínhamos feito um gol e estávamos conseguindo escapar. Desse momento em diante não consegui permanecer mais de 1min sem virar meus olhos para o iluminado torcedor que acompanhava a partida ouvindo alguma emissora AM diretamente do celular, ao pé do ouvido, mais parecendo um rádio de pilhas do passado.
Suportei o que pude até me instalar de cócoras ao lado dele, que tirou do seu ouvido o aparelho e o deixou sobre a mesa para que pudéssemos ouvir juntos. Descobri que ele também se chamava Leandro e já podia perceber com clareza que, se tudo desse certo, as partidas seguissem com resultados ruins para os adversários e o próprio Inter mantivesse a vitória, aquela tarde jamais seria esquecida.
E deu certo. Deu certo demais, na realidade. Contrário ao bom senso que indicava um domingo arruinante e um futuro ainda pior para o alvi-rubro gaúcho, nos safamos, estamos vivos e, aquele dia, jamais será esquecido.

A viagem até Macéio de carro era o grande desafio das férias. Toda incerteza que um caminho de mais de três mil e quinhentos quilômetros reúne (mais de sete mil ida & volta) realizado dentro de um automóvel em família, me deixou mais apreensivo que excitado. Foram quatro dias inteiros dentro do carro, com um pit-stop em Belo Horizonte na ida, e outros quatro dias inteiros na volta. As paisagens, cenários, pessoas, tudo que iria encontrar em Alagoas e no caminho ficavam um pouco ofuscados pela dificuldade em si da tarefa. Foram inúmeros bons momentos, com outros tantos nem tão bons, como tudo na vida, diríamos. Praias, o Rio São Francisco, o oceano e sua água deliciosa, muito mais quente, além dos lugares. O desafio foi concluído de excelente maneira: nenhum perrengue envolvendo o automóvel, zero sinistros, nem os pneus pareceram ter sido descalibrados. A máquina funcionou de maneira irretocável.

Em outubro de 1996 a banda australiana se apresentou em SP. Na época tinha 14 anos e mesmo assim a vida inteira me pareceu injusto não ter podido ir aquela apresentação no Pacaembu. Nessa época eu respirava AC/DC. Meados de 2010 ou final de 2009, não lembro ao certo, a banda veio novamente ao Brasil. Conhecido como minha época maruja, estava trabalhando sobre o mar, sem qualquer chance de assisti-los. Nessa época eu ouvia com menor frequência o som deles, já tendo expandido a quantidade de gêneros musicais escutados, o hard rock não tinha mais o protagonismo que ele alcançava na minha juventude. Ainda assim, seguia sendo a minha banda. Por ironia, no período onde menos escuto o tipo de som que eles fazem, nesta quarta-feira, dessa vez inclusive acompanhado, enfim irei assistir o grupo que é pra mim a tradução do termo rock and roll, que me moveu como nenhum outro desde que passei a escutar música com alguma regularidade, autores do álbum que eu mais escutei e que o meu toca disco mais reproduziu na vida, o Live in Donnington de 91 ou 92.
E aos 43 anos, sem muitas esperanças de que esse momento se concretizasse, amanhã vou assistir, ao vivo, definitivamente, a minha banda.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

THIS IS THE MOMENT I´VE BEEN WAITING FOR

Ted Gioia escreve sobre uma espécie de epifania que teve ao assistir o Yusef Lateef Quartet. Difícil comparar instantes, mas há momentos que se assemelham a esse, onde você é arremessado a uma sensação de arrebatamento/iluminação, que eu considero ter sentido em alguma ocasião na vida. Curiosamente segue-se procurando novos instantes e sensações como essas no decorrer dos dias: a espera desse momento de Graça que dá um sentido a isso tudo.

Years later, I met an anthropologist who had studied kabuki theater in Japan. He told me that members of the audience often shouted out exhortations during a performance. He said he had been in attendance at one event where the guy behind him jumped up from his seat, at an especially dramatic juncture, and exclaimed:

This is the moment I’ve been waiting for.

When I heard him tell that story, I immediately recalled my initiation into jazz at the Lighthouse. That was exactly what I felt around 17 seconds into the performance by the Yusef Lateef Quartet. I honestly wanted to jump up, and tell everybody in the nightclub:

This is the moment I’ve been waiting for.

I knew in that instant that everything in my life had been leading up to this. And I’d been wasting my time with rock and pop and classical music. My destiny was jazz. I should have figured it out before. This music had everything I’d ever wanted in a creative experience: intensity, intelligence, spontaneity, sophistication, interaction, emotional integrity, analytical depths.

quarta-feira, novembro 01, 2023

UM ANO ATRÁS

Imaginava que tinha sido hoje e agora, consultando o calendário, observei que a data correta foi ontem: o aniversário de um ano daquela chuvosa segunda-feira, que reservou a ida a uma consulta médica na cidade de Taquara acompanhando meu pai.

A ocasião que contrasta com o dia pós vitória petista nas eleições deveria por óbvio ser uma data amaldiçoada, no entanto, tornou-se uma das mais marcantes passagens que tive ao lado do Seu Paulo nos 4, quase 5 meses, que ele encarou aquilo que posteriormente eu rotularia como o seu calvário.

Havia deixado Canela com destino a Ivoti no início da noite do domingo, sabendo que o dia seguinte reservaria um novo retorno pelo meio dia imediatamente após a manhã de trabalho em São Leopoldo. Não desconfiava que aquela segunda que iniciaria chuvosa, permaneceria dessa maneira sem um instante de trégua até o seu fim. Um dia marcado pela chuva, a pressa pelo medo do atraso, o trânsito abarrotado, em suma, as dificuldades.

A condição do meu pai sem conseguir se movimentar direito sem um dos seus pés, já traria complicações severas, mas a situação, agravada pela baderna nas estradas devido a revolta com o resultado das urnas, tornou o 31 de outubro de 2022 um dos marcos desses tristes dias em que as engrenagens internas do meu velho foram falhando aos poucos, culminando exatos 16 dias depois na quarta-feira de sua despedida.

Olhando já a distância, sob um verniz que também pode ser tendencioso e induzir ao engano, durante essa segunda-feira, dia que passamos boa parte dele juntos, meu pai já dava mostras do adeus que viria logo adiante. O silêncio demasiado não era nenhuma novidade em se tratando dele, mas algo no olhar, na estranheza dos pensamentos e na memória, mas especialmente na tolerância com o sofrimento. Somente se confrontado admitiria eventual dor, caso contrário, suportava de uma maneira que ainda me foge a compreensão: não como um castigo ou uma injustiça, de certa forma como parte do seu destino.

Hoje, gostaria de repetir aquele mesmo dia, passar por todos os perrengues que ultrapassamos e ao término, já inicio da noite, me despedir dele apertando firme sua mão e o abraçando. Quem sabe mais velho, daqui uns anos, eu entenda melhor esse período. A sucessão dos acontecimentos que o levaram foi tão rápida e a sensação de ter feito muito menos do que deveria é tamanha.

quarta-feira, março 24, 2021

EXTREMA-IMPRENSA

Bruna Frascolla faz um retrato perfeito da imprensa/mídia aqui. Nada caiu tanto em descrédito nos últimos tempos.

Ou o leitor engole essa conversa, ou então fica desconfiado da imprensa, e prefere se informar pelo zap-zap. Não é de admirar que a imprensa caia em descrédito. Mas os jornais, em vez de reverem a sua conduta, criam a figura da “agência de checagem de fatos”, que sempre vai concluir que tudo o que os opositores do progressismo dizem é fake news, e nada do que os progressistas dizem é fake news. Então não é de admirar que as “agências de checagem” não convençam ninguém fora da bolha progressista, que abarca a maioria da imprensa. Que fazem os jornalistas? Concluem que a plebe precisa de tutela estatal para determinar o que é a Verdade e censurar as fake news. Senão as pessoas votam do jeito que querem, e aí sim é que acaba a democracia.

Como os jornalistas se acostumaram à ideia de “agência de checagem de fatos”? Averiguar fatos é a função mais elementar do jornalismo. Antes das tais agências, existia simplesmente jornalismo, ou então sites especializados em desmentir boatos da internet, como o E-farsas. Desmentir boatos documentados é um propósito modesto e exequível. Mas determinar a verdade dos fatos é um empreendimento de complexidade variável: pode ser uma tarefa para gerações, executada por cientistas e historiadores que debaterão, debaterão e debaterão, sem parecer chegar a um acordo nunca.

segunda-feira, fevereiro 01, 2021

CORROSÃO


Nas próprias Humanidades, surge uma disposição contra a tradição e os great books, em nome de uma visão progressista na qual esses livros manifestariam as forças da opressão. Ainda estudam-se os grandes textos, mas sem um bom motivo para isso.

A tendência corrosiva do pós-modernismo: busca-se criar um conhecimento novo a partir da manifestação da própria superioridade diante dos autores antigos estudados, mas, assim, destroem o próprio objeto de estudo. Tudo o que resta é uma hermenêutica da suspeita e um jargão compreensível apenas para experts.

Trecho retirado de uma excelente resenha de Porque o Liberalismo Fracassou de Patrick Deneen. Ao que parece, a grande obra publicada no Brasil no ano passado e que num futuro por enquanto distante, há de ser lida por esse vivente.

quarta-feira, janeiro 27, 2021

COMO O DESTINO SE IMPÕEM SOBRE NÓS, INDEPENDENTE DA NOSSA VONTADE, E COMO DEVERÍAMOS ESTAR A ALTURA DOS DESAFIOS QUE SE APRESENTAM

E os anteriormente impensáveis, melhor, incogitáveis trezentos e sessenta e cinco dias sem um gole de álcool acabaram acontecendo. Um ano e sete dias, precisamente falando. A jornada findando simbolicamente num vinho seco em família na noite do meu aniversário.

Seria mentira afirmar que permanecer todo esse tempo sem beber foi algo complicado. Não foi tanto assim, pois haviam outras inúmeras coisas acontecendo que facilitaram a empreitada. Minha vida assumiu uma direção tão diferente nos últimos meses que é impossível fazer qualquer paralelo com outro instante anterior. Por isso, é máxima a certeza de que o contexto ajudou demais a realização da tarefa: uma criaturinha se materializou, uma epidemia surgiu e freou as idas e vindas, os instantes de ócio diminuíram brutalmente, as preocupações e os dramas não ficaram em nada menores, mas mudaram de terreno, plano, configuração. 

I realised that I would have to work on not drinking and my mental wellbeing every day of my life. Not drinking is good but it doesn’t magically cure everything. Life is not straight forward; it still can be difficult, and I work on my mental health on a daily basis. That still has a certain stigma, but I see it as normal and I embrace it. After all, if I exercise most days to maintain my physical fitness, where’s the problem with exercising the mental muscle every day to maintain my mental fitness?
OYNB.

E daqui em diante como vai ser? Não saberia dizer. Seria precipitado arriscar.
Acho que em situações onde um vinho, uma espumante ou uma cerveja surjam como prazeres a serem aproveitados/usufruídos, eu não deva frear o desejo, especialmente quando estiver acompanhado.
Mas confesso: simplesmente impossível não ambicionar uma vida sem álcool. O mal-estar posterior se torna uma sensação tão, mas tão dispensável que, livrar-se disso de uma vez por todas, não seria, de fato, nada ruim.

No mais, sigo incrédulo como tudo pode ter ganho contornos tão estranhos e diferentes num espaço tão curto de tempo. A ingerência das próprias escolhas contrastando com a aparente aleatoriedade caótica do Destino, em maiúscula. O resultado disso tem contornos profundos e ainda não compreendidos na sua totalidade.
Eis a Vida, em resumo, diriam.

sexta-feira, junho 19, 2020

DAS VIRTUDES DA PASSIVIDADE

Falei que eu, pelo contrário, tinha passado a acreditar cada vez mais nas virtudes da passividade, e em levar uma vida o menos contaminada possível pela vontade. Podia-se fazer quase qualquer coisa acontecer tentando com afinco suficiente, mas tentar —assim me parecia —era quase sempre um sinal de que a pessoa estava atravessando as correntezas, forçando os acontecimentos numa direção em que eles não queriam ir naturalmente, e embora fosse possível argumentar que nada nunca podia ser realizado sem contrariar em alguma medida a natureza, eu havia —para ser bem direta —passado a odiar o caráter artificial dessa visão e as suas consequências. Havia uma diferença grande, falei, entre as coisas que eu queria e as que pelo visto podia ter, e até que eu tivesse de uma vez por todas me conciliado com esse fato decidira não querer absolutamente nada.

Rachel Cusch em Esboço

segunda-feira, outubro 07, 2019

POR UMA NOVA DISTRIBUIÇÃO DAS CARTAS

Também se pode dizer que mesmo quando pessoalmente a gente já perdeu a partida, quando já jogou a última carta, alguns —não todos, não todos —ainda acalentam a ideia de que algo lá no céu vai anular a mão, decidir arbitrariamente que se distribuam as cartas de novo, que se joguem os dados de novo, e isso apesar de nunca terem vislumbrado, em momento algum da vida, uma intervenção, nem sequer a presença de uma divindade qualquer, apesar de terem plena consciência de que não merecem especialmente a intervenção de uma deidade favorável, e apesar de saberem que, a julgar pelo acúmulo de erros e falhas que constitui sua vida, merecem menos que qualquer um.

Michel Houellebecq em Serotonina.

quarta-feira, agosto 21, 2019

OYNB*

Num desafio autoimposto de cessar o consumo de vinho, cerveja e espumantes por período indeterminado, ultrapasso hoje a marca de 50 dias sem um único gole. Encontrei esse texto sobre ingerir menores quantidades de açúcar no cotidiano e trocando uma palavra ou outra, ele poderia servir perfeitamente para o meu caso com o álcool.

On special occasions – an anniversary, perhaps, or a birthday – I will eat a mouthful of, say, lemon meringue pie. But only as a rare treat, perhaps five or six times a year. Always in the past, after one of my experiments, I would take up the old habits. But not with sugar. It’s not just the long shadow of possible illness. It’s that – like others I know who have stopped – I feel so much better without it. I like knowing that, if I need to, I can hike all day without eating. I enjoy being free of rampaging hunger. Running in the mornings has become a delight. I prefer feeling more serene, less prone to mood swings or afternoon fatigue. My mind feels clearer. I can’t imagine going back. Life is more savory this way.

*One Year No Beer