quinta-feira, março 31, 2011

FELICIDADE

(...)sempre digo que a "felicidade" não é um lugar a que se chega; nem sequer é um "estado de espírito" que seja possível manter pela eternidade. É, tão somente, aquilo que existe quando não estamos a pensar no assunto.
O que significa que ela é temporária, intermitente e, na maioria das vezes, contingente. Não se procura; encontra-nos. Estar preparado e grato para esse encontro já é um milagre da existência. Exigir mais é, paradoxalmente, uma forma de nos condenarmos à infelicidade. 

Coutinho em meio a sua crônica na Folha fala admiravelmente sobre a felicidade.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

OLÁ

Findada a temporada NAVAL, de volta ao lar pós meses de trabalho ordinário e visitas a numerosos locais do velho mundo, tudo leva a crer que esse blog volte a sua atividade normal, que não é tão ativa assim. Não tanto como alguns anos atrás, onde o ímpeto de opinar/sugerir/criticar ou escrever ao léu era bem maior, mas ainda com fôlego para os dias que seguem em frente.
Com enorme pesar terei de dizer não a minha costumeira lista de melhores albúns do ano, que tanto me agrada elaborar. Listas são bobagens, mas isso não as condena à inutilidade, como diria Sérgio Rodrigues. Esse ano ouvi pouca coisa, não houve tempo ou instantes propícios para isso e minhas visitas a web foram reduzidas e, via de regra, movidas pelo interesse de receber e enviar noticias aqueles que eu quero bem e acessar sites que tem minha estima. Nenhuma possibilidade de acesso aos lançamentos que só agora estou tendo o prazer de baixar.
Em alguns dias começo a postar fotos dessa valiosa empreitada marítima. O blog, enfim, volta a ativa.

terça-feira, agosto 03, 2010

NO FLICKR

Após descaso profundo, motivado sobretudo por preguiça, dramas pessoais e jogatinas infindáveis disso daqui, enfim consegui dar um passo na saga de edição e envio de algumas das fotos tiradas nos 8 meses distantes de casa.
Procurando alguma distração? Passa lá, então.

terça-feira, maio 04, 2010

TRABALHO BRAÇAL*

Envolver-se por meses a fio em uma realidade que parece tornar o mundo a sua volta nada além de uma pequenina bolha, e expor o seu corpo a diárias tarefas de cunho extritamente físico, tem me cobrado certo preço. Isso fica bastante evidente quando se nota a total ingerência desse espaço, já acostumado as habituais instabilidades do seu proprietário que agora extrapola e acrescenta atualização alguma desde fevereiro último.
Até meados de junho, mais tardar julho, salvo eventualidade maior, as coisas permanecerão assim nesse sitio: sensivelmente paradas. Prometo para quando do meu regresso ao lar, e a um ambiente onde eu disponha de privacidade e o tempo necessário, um link para valiosas fotos que se acumulam nesses meses todos vagando por inúmeros cantos. Amanhã a tarde o alvo será Paris e dois dias depois Amsterdam. Reconheço sincera ansiosidade. O obturador da Nikon terá enorme trabalho.

*Meu atual descaso com a internet total e sem limites fez com que esse post fosse publicado após tudo ter ocorrido. Saldo positivíssimo: ambos os lugares são puro deleite e a cidade francesa supera a mais alta expectativa que você há de possuir. O porém, o único porém, foi que nesse exato dia uma greve movida pelo sindicato dos trabalhadores portuarios da França inviabilizou a utilização qualquer ônibus, todos impossibilitados de deixarem as cercânias do porto. Resumo da ópera: muitos euros (pior moeda) tiveram de ser investidos na locação de um táxi que guiou-nos desde Le Havre à capital. A experiência em si foi tão gratificante que os vários $$$ dispensados nem saíram tão caro assim. Elevaram, reconheço, minha antipatia pelo povo de lá.

Franceses: ódio eterno.

sábado, fevereiro 20, 2010

MORE THAN 140

Caracteres além da conta pra pôr no twitter:

...tratar um fumante como um doente representa um novo patamar na longa caminhada rumo à desumanização da espécie. A espécie não reclama. Um cigarro é uma doença, não um vício exercido em liberdade e com liberdade. Chegará o dia em que a ingestão de sal, açúcar, gordura, certos tipos de carne, álcool e outros cardápios terá alas hospitalares inteiras, destinadas a "tratar" comemores e bebedores infectos.

J. P. Coutinho continua sendo das melhores leituras da web. E a próxima geração que se cuide.


I think there is no better way to invite a human being to view their body differently than by inviting them to be an athlete, by revering one's body as an instrument rather than just an ornament. It's a really great way to reorient how you see your body so you can see it as this incredible, awe-inspiring machine that you need to fuel well in order for it to function.

Eis Alanis Morissette, falando uma enorme verdade na newsletter da Runner's World.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

O MELHOR DA MÚSICA NO ANO QUE PASSOU

Atrasado, de novo, lá vou eu:
2009 foi muitissimo generoso em termos musicais: sem falta, mensalmente surgiram albúns, dos mais variados generos, de qualidade acima da média, dignos de serem reservados a salvo no HD para todo o sempre. A lista abaixo é uma tentativa falha de condensar aquilo que, lançado pelas gravadoras no ano passado, eu mais apreciei. Ressalto o “falha” pois mesmo depois da postagem, não hei de obter a necessária certeza da correta colocação desse ou daquele disco na dificilima tarefa de rotular o melhor, o segundo melhor, o terceiro e por aí vai. Não obstante isso, ela ilustra fielmente aquilo que considerei musicalmente grandioso em 2009. Certos albúns julguei dispensável qualquer comentários e todos merecem muito serem escutados. Caso seja do interesse aquele download maroto, encontrará boa parte desses DISCOS, se não sua totalidade, no sempre a mão bolachas.org.

10. Yo La Tengo - Popular Songs
9. The xx - xx
8. Dark Was The Night: Time de peso se fez presente para a construção dessa que foi a grande coletânea do ano: Feist, Cat Power, Spoon, Beirut, Arcade Fire, Sufjan Stevens, etc. Atenção para uma das melhores músicas do The Decemberists, chamada Sleepless, presente nesse albúm.
7. Hercules And Love Affair – Sidetracked
6. The Antlers – Hospice:
O mais melancólico dos albuns da lista. Pérola pra ser devidamente degustada em dias nublados.
5. Wild Beasts – Two Dancers: O segundo albúm dos ingleses é um daqueles discos que crescem de tamanho, ganham maior dimensão e são ainda mais apreciados a cada vez que se escuta. Supondo uma futura revisão dessa mesma lista, não me surpreenderia se eles atingissem melhor colocação.
4. Bill Callahan - I Wish We Were An Eagle: A voz assustadora desse cidadão, num disco memorável que parece ter sido feito décadas atrás.
3. jj – n2: O mais curto dos albuns dispostos aqui e também aquele que mais ouvi, é dono de um post todo especial, dedicado e escrito quando ainda estava deslumbrado com a magnitude da obra. Naquela época parecia não haver dúvida quanto a certeza dele encabeçar essa lista. Hoje, olhando com um pouquinho de distância histórica necessária, não acredito que ele supere os que seguem abaixo.
2. Mew - No More Stories Are Told Today, I'm Sorry, They Washed Away: Não fosse uma pequena caída a partir da metade do albúm, e esse seria seguramente agraciado com o posto de número 1 do ano. Canções como Silas The Magic Car, Repeaterbeater e, especialmente, Introducing Palace Players, trouxeram-no até aqui, essa justíssima segunda colocação.
1. Hernan Cattaneo Reinassance - The Masters Series Vol. 13: Tal como no ano passado, quando John Digweed e o não menos que extraordinário Transitions Vol. 4 encabeçou a lista (hipotética, no caso, pois jamais tê-la publicado), esse 2009 ficará marcado pelo cd 1, desse albúm duplo do argentino que, mais uma vez, consegue elevar a música eletrônica a patamares de elegância e maestria absolutamente sem par.

E aquela que eu intitularia como A Música do Ano, não se encontra nesses albúns todos. Bonnie Prince Billy e o seu apenas razoavel Beware, conserva uma das suas melhores e mais festivas canções de todo o seu enorme e quase infinito repertório. Uma singela pérola de pouco mais de dois minutos chamada I Am Goodbye.
Não raro me pego acompanhando o refrão, batendo palmas e dançando ao ouvi-la. Sempre um sinal da minha mais nobre e sincera apreciação.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

DICTA

...foi nos EUA que ela (a internet) “explodiu” na década seguinte. Um elevado nível de alfabetização associado à presença da maioria dos computadores interconectados do planeta, esse foi o pressuposto para que, meio por geração espontânea, a internet desse à luz a blogosfera tão imprevisível e inesperadamente quanto a invenção de Gutemberg havia gerado aquilo que Hegel chamaria de “a oração matinal do homem moderno”, a imprensa escrita.
Nem com todos os elementos da hegemonia gramsciana espalhados, do pré-primário ao pós-doutoramento, pelo sistema educacional, dos grandes jornais e revistas aos folhetos do grêmio estudantil, pela imprensa e, com apoio da mídia, professados, do cineasta bilionário ao poeta marginal, pela maioria dos agentes culturais e artísticos, nem com tudo isso é possível, em última instância, obter-se um monopólio completo e perene de todas as caixas cranianas.
Que Reinaldo tenha encontrado no blogue seu veículo (e vice-versa) é uma sorte que, negada a Kraus, foi-lhe propiciada pelo Ocidente, pelo Iluminismo, pelo racionalismo, pela ciência, pela Revolução Industrial, pela economia de mercado (que ainda insistem em chamar de capitalismo), por inventores e empresários à procura de lucros e por outros tantos monstros reconhecidamente hediondos, malignos. Seu sucesso, todavia, como esse mais moderno de todos os arcaísmos – o livro – demonstra bem, decorre mesmo é da combinação de talento, trabalho duro e amor (correspondido) pela língua.


Nelson Ascher resenha na terceira edição da Dicta, O País dos Petralhas. Das melhores críticas literárias que já li.

DA FALTA QUE VOCÊ ME FAZ

Enquanto leio O Jogo da Amarelinha, de Cortázar, me deparo com um texto que soa como um recado:


Oliveira bebeu mais um mate. Tinha de cuidar da erva. Em Paris, custava quintos francos o quilo nas farmácias e tratava-se de uma erva perfeitamente asquerosa que a drogaria da estação Saint-Lazare vendia com a vistosa qualificação de “maté sauvage, cueilli par les indiens”, diurética, antibiótica e emoliente. Por sorte, um advogado de Rosário - que, a proposito, era seu irmão – tinha-lhe enviado cinco quilos de Cruz de Malta, mas já restava muito pouco. “Se a erva acabar, estou frito”, pensou Oliveira. “O meu único dialogo verdadeiro é com essa bebida verde.” Estudava o comportamento extraordinário do mate, a respiração da erva fragrantemente levantada pela água e que, com a sucção, desce até pousar sobre si mesma, perdido já todo o brilho e todo o perfurme a não ser que um pouco de água a estimule de novo, autêntico pulmão argentino de reserva para as pessoas solitárias e tristes.


Devem fazer cerca de duas semanas que a minha erva acabou. Cultivava esperança de que uma outra tripulante brasileira havia trazido, quem sabe algum outro cidadão da latino américa, mas nada. Sem perspectiva de comprar erva-mate em praias caribenhas ou mesmo nos EUA, tratei de comprar uma pequenina máquina de café e tentei, em vão, passar pela segurança do navio. Como tripulante estou impossibilitado de possuir um artefato desses na cabine. Confiscaram-na e agora só me resta sonhar com a mesma sorte do protagonista do paragrafo acima, de uma bem-aventurada alma enviar um pacote que seja.

domingo, novembro 08, 2009

DAS CORRIDAS

Após periodo nebuloso de desgraças fisicas, sem a possibilidade de realizar exercicio algum, e agora, trabalhando sob a água, sem a possibilidade de correr, se não numa esteira de uma iluminada por demais sala de um deck subterranêo da embarcação, me dispus a elencar os instantes divinos que a corrida, de muito bom grado, me proporcionou. Texto que agradará os adeptos, e causará irritação e constrangimento aos não chegados.
Pra matar a saudade, elenco os três maiores, de uma já interessante fortuna, dessa forma:

3. O sprint da Maratona de Punta del Este
Vislumbrar no horizonte o término da prova e constatar que o corpo ainda possui uma exigua cota de energia, o suficiente para lhe possibilitar acelerar, não especificamente acelerar, mas sair da constância do seu ritmo para um mais veloz. Eis a maravilha: enquanto os demais definhavam nos últimos kms, onde estradas de chão se misturavam com parcelas de asfalto, pude ultrapassar a linha de chegada como comumente se diz, “sobrando”.

2. A Maratona de SP e os seus últimos 4km's
São Paulo foi a maratona escolhida para 2009, em detrimento da capital gaúcha que, sem uma razão aceitavel e concebivel, realiza a sua maratona uma semana antes dos paulistas. Fui até lá e verifiquei o quão ardua se trata a maior prova desse tipo no país.
Do km 30 em diante, mais especificamente no instante em que se deixa pra trás a cidade universitária, teve inicio a tortuosa via-crucius que durou até o último metro dos 42,2km. Do km 38 em diante, trecho que inclui um túnel, aquela altura, letal para qualquer corredor, é o trecho que destaco para comentar: atravessa-lo, movido pelas últimas sobras de energia que o corpo reserva, sendo necessário um rigoroso controle dos movimentos das passadas e dos membros como um todo, numa espécie de rotação ideal, tal como um automovel exigiria, para que você não se visse abraçado, literalmente, pelas cãimbras, além da sensação de abafamento que o clima seco do meio-dia propiciava, tudo isso junto e somado e temos como rescaldo um feito a ser comemorado: a chegada, ainda que com suas demoradas 3h53min, sem paradas, ainda que nos últimos km em baixa velocidade. Um feito.

1. Parte final do penultimo trecho da Volta à Ilha
Por razão de obras em determinado local de Florianopolis, para que não houvesse nenhum ponto de troca e consequente acúmulo de pessoas nas imediações desse lugar, cerca de 12km de um trecho que seriam comumente dividido entre dois atletas, foram realizados por apenas um na prova de 2009. O trecho em si não trazia nenhuma dificuldade sobressalente, ao contrário, as dificuldades todas haviam sido transpostas nas areias, morros e lamaçais que antecederam-no. Não havia maior motivação entre ultrapassar esse ou aquele corredor, e o instante não propiciava quase nenhuma incidência de ânimo ou coisa do tipo. Por mais distantes que os demais corredores aparecessem no horizonte que se alongava o meu campo de visão na já noite catarinense, a velocidade que imprimia era suficientemente maior e a ultrapassagem ocorria de modo previsivel. Deviam faltar uns 5km pra entrega do bastão e o fim do meu trecho, quando noto pelo som que ecoava no asfalto, e depois pela sombra que a luz dos postes emitia, um corredor as minhas costas aproximando-se rapidamente e enfim, ao invés de continuar realizando ultrapassagens, a sofreria. Nada que importasse, nada que fizesse qualquer diferença, resumindo, não ocorreria NADA. Mas aí, eis o grande delirio da coisa toda, esse vazio todo ruiu e fui inflado dum desejo de superação sem tamanho. E o que ocorreu daquele instante, onde o cidadão se postou a pouco menos de 1 metro de distância de mim, até o desfecho de tudo, com a entrega do bastão e a exaustão sem limites, será algo que não hei de me esquecer. A auto-motivação incessante, proporcionada por um corpo em estado de extâse, inflado pelo quimicos naturais gerados por você próprio e eis o combustivel que me fez voar. Corri como nunca antes e, até então, como nunca mais ousei depois.
Findados os trechos todos, a beira-mar, após a linha de chegada, em meio a confraternizações e felicitações das equipes, entrega de medalhas e coisa do genero, tive a oportunidade de encarar o meu oponente naqueles - pra minha pessoa, históricos para todo o sempre - 5km. A ele, faltava-lhe emoção, não tinha desfrutrado do mesmo delirio, do mesmo “pega” que na minha mente haviamos travado. Cheguei até a cogitar que estava na posse de um espirito de competitividade exacerbado, devido a complacência dele ao me cumprimentar. Esperava uma resposta diferente, um xingamento que fosse, qualquer coisa, menos uma postura tão inerte frente ao emocionante duelo que, na minha cabeça, logicamente, haviamos acabado de realizar. Porém, como não há nada mais individual do que a corrida, a idéia do reconhecimento do adversário batido desapareceu em seguida. O que sobrou – o que sempre sobra quando se trata da idéia de correr - foram as sensações decorrentes tão somente da minha mente.
E deve ser por isso que eu gosto tanto e não raro costumo até superestimar esses instantes, elevando-os a uma condição sagrada. Algo que provavelmente em algum momento eu tenha feito ao longo desse texto.