quarta-feira, fevereiro 19, 2014

DEUSA SAÚDE

Com o declínio das religiões tradicionais no Ocidente e o fim de qualquer possibilidade de transcendência, tudo que resta aos homens modernos é a tirania da imanência: os seus corpos, as suas patéticas carcaças -e o medo permanente de que a Deusa Saúde, a única que resistiu no Panteão, os possa atraiçoar a qualquer momento.

Coutinho, as usual, escrevendo as melhores crônicas em língua portuguesa.

sábado, janeiro 11, 2014

O RÁDIO AM

Minha relação com o rádio AM, em especial as coberturas esportivas, se estabeleceu ainda na primeira metade da década de 90. Aquela altura ouvia basicamente a Gaúcha, em virtude de que se tratava do melhor sinal, um som sem as estáticas e ruídos comuns a outras emissoras na época, e também porque era muito boa, claramente acima das demais, dos comentaristas aos narradores, da produção aos repórteres, a rádio Gaúcha na década de 90 estabeleceu um parâmetro de qualidade que ela, aparentemente de maneira intencional, no intuito de "atualizar-se", tornar-se contemporânea a geração redes-sociais, procurou se distanciar do passado, modificando desde lindas trilhas de abertura até o seu quadro de profissionais. A qualidade, outrora parâmetro para a concorrência, ganhou contornos de  medíocridade.

No inicio desse século iniciei a busca por outros dials. A Guaíba, naquela epoca com a dupla Reche e Haroldo de Souza como principais protagonistas, me parecia demasiado irritante e com uma conotação populista de causar enjôo. Sempre mais disposta a ficar reclamando de perseguições das arbitragens aos times gaúchos e da concorrência da RBS. Pouca coisa mudou nesses quesitos, mas sem a presença do ex-vereador, de alguns anos pra cá a emissora ganhou um pouco da minha simpatia e o programa de debates ao meio dia é atualmente uma das melhores opções pra se ouvir. Na maioria dos dias conta apenas com cronistas mais velhos, e só isso já bastaria, num atual cenário de coberturas esportivas recheadas de jovens, amantes do futebol europeu e números e táticas e teses e mais teses, do alto dos seus pouco mais de 20 ou 30 anos alçados por si próprios a condição de bastiões da sabedoria futebolística, pretensiosos até a raiz.

Em meio ao distanciamento dos 600mhz e minha aproximação dos 720mhz conheci outra turma. No AM 640 da Bandeirantes, no fim da década de 90, até um pouco além da primeira metade da década seguinte, Paulo Mesquita, João Garcia, Daniel Oliveira, Alexandre Praetzel, Cristiano Silva, Mario Lima, Belmonte, Ribeiro Neto, Hugo Amorim, e outros que minha memória não recorda, sob a égide do maior de todos, Mestre Claudio Cabral, formaram possivelmente o melhor time de profissionais esportivos já formado no radio esportivo gaúcho. O programa de debates ao meio-dia era do gênero imprescindível, balizava minhas ideias sobre a situação dos clubes e a forma com que os jogos haviam ocorrido. Parecia necessário assistir a partida e aguardar pelo programa. Uma tradução do jogo, diferentes e novas perspectivas apresentadas, pontos de vista que com o passar dos anos formaram o alicerce da minha maneira de ver futebol.
O falecimento do Mestre, acrescido com a entrada e a conseqüente saída de alguns, enfraqueceu muito o grupo da Bandeirantes, que parece ter perdido integralmente sua identidade de anos atrás. Uma lástima gigantesca.

O rádio AM segue e provavelmente seguirá sendo um formidável companheiro para as mais variadas ocasiões. Não se larga um habito enraizado a tantos anos de uma hora pra outra, mas que saudade eu sinto de tempos idos, épocas anteriores que, sem quere soar falsamente saudosista, parecem que de maneira alguma voltarão mais.

terça-feira, dezembro 31, 2013

ANTES QUE O ANO ACABE

Findando em poucos minutos esse 2013 que não deixará saudades, em 2014 ambiciono qualquer coisa menos ele.

terça-feira, novembro 19, 2013

A HORDA DO ELOGIO MÚTUO

Da mesma forma, gosto de poder apreciar certas unanimidades, de eleger os meus preferidos e de não pertencer a uma patota que pré-aprove as minhas opiniões, fugindo como da peste dessa cansativa mentalidade de horda que aclama ou desautoriza autores, e que é praticada pela maioria dos nossos valorosos luminares da literatura brasileira contemporânea.

Vanessa Barbara  comentando acerca de algo que assume características cada vez mais explícitas no atual campo literário nacional, essa intersolidariedade grupal da lisonja e elogio suspeitosamente sincero.

terça-feira, novembro 12, 2013

TEXTO EMPOEIRADO

Averiguando alguns posts salvos na condição de "rascunho", me deparei com esse que segue abaixo. Ele é incompleto, provavelmente por essa razão eu não o publiquei na época: almejava criar uma pequenina lista de recomendações antes de envia-lo ao blog.
Mas considerei justo pública-lo agora pois a música de que ele trata é algo que supera simples elogios. Um link do youtube pra facilitar.

A faixa 05, The Ocean, de Richard Hawley do albúm Coles Corner.
Não ouvi nenhuma canção mais refinada que essa em 2008. Atemporal por inteira e ainda assim destilando contemporaneidade e passado numa elegância e forma explêndidas.
Chega, sei, mas é tudo isso.
Gostei horrores de inúmeras de inúmeras outras, dentre as quais:

USELESS

Faz alguns anos que, assediados por críticos e não-leitores (categorias, curiosamente, muitas vezes superpostas) que lhe esfregam na cara sua crescente irrelevância cultural, muitos escritores vêm adotando uma defesa baseada no estímulo que a ficção daria às faculdades empáticas do leitor. Alegam que as narrativas inventadas aguçariam em quem as lê a capacidade de imaginar o outro, conceber o diferente e, portanto, ser mais compreensivo, democrático, compassivo, humano.

Sérgio Rodrigues aborda as benesses inclusas em toda a inutilidade que é a literatura.

quarta-feira, outubro 02, 2013

LINKLATER

I feel like if someone were to touch me, I'd dissolve into molecules.

Sentença de Before Sunset, do Richard Linklater. Faz pouco que descobri que agora há um Before Midnight, lançado nesse ano. Assistirei. Deve agradar, como os anteriores.

ROGER SCRUTON

Quando as pessoas são incapazes de encontrar consolação, elas se vingam de si mesmas e do mundo tentando mostrar que a consolação é impossível. Nós projetamos nossas próprias falhas morais no mundo de forma a nos provermos de uma desculpa para ter estas falhas. Assim, quando as pessoas são incapazes de amar, elas descrevem o próprio mundo como “sem amor” e “impossível de ser amado”.

Trecho de uma entrevista com o cidadão por trás de On Beauty, obra imprescindível e que eu recomendo assim, de joelhos.

terça-feira, agosto 13, 2013

DAS FALÁCIAS E TAMBÉM DO SONO

Eu gosto mesmo é de dormir (...). É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o corpo e a cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono.

Michel Laub, na Folha, assinalando as falácias da literatura e, nessa passagem, me lembrando da minha relação com o sono em noites frias de inverno.