segunda-feira, maio 18, 2026
DA VIDA ATRAVESSADA PELO DESMEDIDO
terça-feira, março 03, 2026
TRÊS ASSUNTOS
Começamos: início de dezembro último, o Internacional havia se metido numa situação tão horrenda que na rodada final da competição necessitava além da própria vitória, uma reunião de resultados dos seus adversários. Era possível, mas não era provável. O domingo era de muito calor e continha, o tempo inteiro, a aterradora aproximação das 16h, o horário do início da partida. Não tinha intenção de assistir o jogo, mas sabia que seria inviável ficar alheio a ele. O Internacional é, e conforme ficou bem claro nesse dia, algo incontornável na matriz da minha vida. O dia anterior, um sábado igualmente escaldante, tinha marcado o último encontro da turma dos pais da criançada que estava concluindo a pré-escola. De maneira inusitada eu havia me tornado próximo a várias pessoas que teriam seus filhos, em questão de menos de dois meses, estudando em diferentes locais. Uma separação brusca para uma turma que estava junta praticamente desde o berçário.
Não me recordo como se configurou o início da tarde, de alguma maneira fomos até o clube de piscina da cidade sozinhos, minha mulher e eu. A filha menor tinha ido mais cedo com a avó e já havia partido deixado o clube enquanto a mais velha devia estar envolvida noutra programação. Irmos no formato casal correspondia a possibilidade de ficarmos menos preocupados, cada um imerso nos seus próprios interesses ou apenas suportando o tédio embaixo do sol, sem o receio de uma criança cair, escorregar ou até se afogar. Em contrapartida, cada minuto durava o dobro do tempo para passar.
A partida contra o Bragantino teve início enquanto eu fazia exercícios na academia climatizada desse mesmo clube na clara intenção de permanecer o máximo possível alheio à realidade. O relógio devia ter alcançado uns 20min quando eu deixei o lugar abrindo a porta e instantaneamente sendo abraçado por uma sensação térmica que se aproximava dos 40 graus. No caminho até a mesa que abrigava nossos pertences pude observar de soslaio o placar ainda zerado na imensa televisão que transmitia a partida para uma meia dúzia de pessoas que eu não sabia ao certo se torciam contra ou a favor do Colorado. Jamais me atreveria a se juntar a eles. Estava num estado de nervos tamanho que anularia qualquer chance de participar de interações como essas.
Permaneci sentado olhando ao redor e tentando disfarçar o horror interior que eu experimentava. Sabendo que a ansiedade apenas iria disparar ainda mais, não abri o aplicativo de resultados no celular. Desconhecia o placar até o instante que percebi, distante uns 15 ou 20 metros um cidadão com um boné do Inter sobre a mesa comemorar. Fiz gestos perguntando o que tinha ocorrido e deu pra entender a mensagem: tínhamos feito um gol e estávamos conseguindo escapar. Desse momento em diante não consegui permanecer mais de 1min sem virar meus olhos para o iluminado torcedor que acompanhava a partida ouvindo alguma emissora AM diretamente do celular, ao pé do ouvido, mais parecendo um rádio de pilhas do passado.
Suportei o que pude até me instalar de cócoras ao lado dele, que tirou do seu ouvido o aparelho e o deixou sobre a mesa para que pudéssemos ouvir juntos. Descobri que ele também se chamava Leandro e já podia perceber com clareza que, se tudo desse certo, as partidas seguissem com resultados ruins para os adversários e o próprio Inter mantivesse a vitória, aquela tarde jamais seria esquecida.
E deu certo. Deu certo demais, na realidade. Contrário ao bom senso que indicava um domingo arruinante e um futuro ainda pior para o alvi-rubro gaúcho, nos safamos, estamos vivos e, aquele dia, jamais será esquecido.
A viagem até Macéio de carro era o grande desafio das férias. Toda incerteza que um caminho de mais de três mil e quinhentos quilômetros reúne (mais de sete mil ida & volta) realizado dentro de um automóvel em família, me deixou mais apreensivo que excitado. Foram quatro dias inteiros dentro do carro, com um pit-stop em Belo Horizonte na ida, e outros quatro dias inteiros na volta. As paisagens, cenários, pessoas, tudo que iria encontrar em Alagoas e no caminho ficavam um pouco ofuscados pela dificuldade em si da tarefa. Foram inúmeros bons momentos, com outros tantos nem tão bons, como tudo na vida, diríamos. Praias, o Rio São Francisco, o oceano e sua água deliciosa, muito mais quente, além dos lugares. O desafio foi concluído de excelente maneira: nenhum perrengue envolvendo o automóvel, zero sinistros, nem os pneus pareceram ter sido descalibrados. A máquina funcionou de maneira irretocável.
Em outubro de 1996 a banda australiana se apresentou em SP. Na época tinha 14 anos e mesmo assim a vida inteira me pareceu injusto não ter podido ir aquela apresentação no Pacaembu. Nessa época eu respirava AC/DC. Meados de 2010 ou final de 2009, não lembro ao certo, a banda veio novamente ao Brasil. Conhecido como minha época maruja, estava trabalhando sobre o mar, sem qualquer chance de assisti-los. Nessa época eu ouvia com menor frequência o som deles, já tendo expandido a quantidade de gêneros musicais escutados, o hard rock não tinha mais o protagonismo que ele alcançava na minha juventude. Ainda assim, seguia sendo a minha banda. Por ironia, no período onde menos escuto o tipo de som que eles fazem, nesta quarta-feira, dessa vez inclusive acompanhado, enfim irei assistir o grupo que é pra mim a tradução do termo rock and roll, que me moveu como nenhum outro desde que passei a escutar música com alguma regularidade, autores do álbum que eu mais escutei e que o meu toca disco mais reproduziu na vida, o Live in Donnington de 91 ou 92.
E aos 43 anos, sem muitas esperanças de que esse momento se concretizasse, amanhã vou assistir, ao vivo, definitivamente, a minha banda.
sexta-feira, fevereiro 20, 2026
THIS IS THE MOMENT I´VE BEEN WAITING FOR
Years later, I met an anthropologist who had studied kabuki theater in Japan. He told me that members of the audience often shouted out exhortations during a performance. He said he had been in attendance at one event where the guy behind him jumped up from his seat, at an especially dramatic juncture, and exclaimed:
This is the moment I’ve been waiting for.
When I heard him tell that story, I immediately recalled my initiation into jazz at the Lighthouse. That was exactly what I felt around 17 seconds into the performance by the Yusef Lateef Quartet. I honestly wanted to jump up, and tell everybody in the nightclub:
This is the moment I’ve been waiting for.
I knew in that instant that everything in my life had been leading up to this. And I’d been wasting my time with rock and pop and classical music. My destiny was jazz. I should have figured it out before. This music had everything I’d ever wanted in a creative experience: intensity, intelligence, spontaneity, sophistication, interaction, emotional integrity, analytical depths.
quarta-feira, novembro 01, 2023
UM ANO ATRÁS
Imaginava que tinha sido hoje e agora, consultando o calendário, observei que a data correta foi ontem: o aniversário de um ano daquela chuvosa segunda-feira, que reservou a ida a uma consulta médica na cidade de Taquara acompanhando meu pai.
A ocasião que contrasta com o dia pós vitória petista nas eleições deveria por óbvio ser uma data amaldiçoada, no entanto, tornou-se uma das mais marcantes passagens que tive ao lado do Seu Paulo nos 4, quase 5 meses, que ele encarou aquilo que posteriormente eu rotularia como o seu calvário.
Havia deixado Canela com destino a Ivoti no início da noite do domingo, sabendo que o dia seguinte reservaria um novo retorno pelo meio dia imediatamente após a manhã de trabalho em São Leopoldo. Não desconfiava que aquela segunda que iniciaria chuvosa, permaneceria dessa maneira sem um instante de trégua até o seu fim. Um dia marcado pela chuva, a pressa pelo medo do atraso, o trânsito abarrotado, em suma, as dificuldades.
A condição do meu pai sem conseguir se movimentar direito sem um dos seus pés, já traria complicações severas, mas a situação, agravada pela baderna nas estradas devido a revolta com o resultado das urnas, tornou o 31 de outubro de 2022 um dos marcos desses tristes dias em que as engrenagens internas do meu velho foram falhando aos poucos, culminando exatos 16 dias depois na quarta-feira de sua despedida.
Olhando já a distância, sob um verniz que também pode ser tendencioso e induzir ao engano, durante essa segunda-feira, dia que passamos boa parte dele juntos, meu pai já dava mostras do adeus que viria logo adiante. O silêncio demasiado não era nenhuma novidade em se tratando dele, mas algo no olhar, na estranheza dos pensamentos e na memória, mas especialmente na tolerância com o sofrimento. Somente se confrontado admitiria eventual dor, caso contrário, suportava de uma maneira que ainda me foge a compreensão: não como um castigo ou uma injustiça, de certa forma como parte do seu destino.
Hoje, gostaria de repetir aquele mesmo dia, passar por todos os perrengues que ultrapassamos e ao término, já inicio da noite, me despedir dele apertando firme sua mão e o abraçando. Quem sabe mais velho, daqui uns anos, eu entenda melhor esse período. A sucessão dos acontecimentos que o levaram foi tão rápida e a sensação de ter feito muito menos do que deveria é tamanha.
quarta-feira, março 24, 2021
EXTREMA-IMPRENSA
Ou o leitor engole essa conversa, ou então fica desconfiado da imprensa, e prefere se informar pelo zap-zap. Não é de admirar que a imprensa caia em descrédito. Mas os jornais, em vez de reverem a sua conduta, criam a figura da “agência de checagem de fatos”, que sempre vai concluir que tudo o que os opositores do progressismo dizem é fake news, e nada do que os progressistas dizem é fake news. Então não é de admirar que as “agências de checagem” não convençam ninguém fora da bolha progressista, que abarca a maioria da imprensa. Que fazem os jornalistas? Concluem que a plebe precisa de tutela estatal para determinar o que é a Verdade e censurar as fake news. Senão as pessoas votam do jeito que querem, e aí sim é que acaba a democracia.
Como os jornalistas se acostumaram à ideia de “agência de checagem de fatos”? Averiguar fatos é a função mais elementar do jornalismo. Antes das tais agências, existia simplesmente jornalismo, ou então sites especializados em desmentir boatos da internet, como o E-farsas. Desmentir boatos documentados é um propósito modesto e exequível. Mas determinar a verdade dos fatos é um empreendimento de complexidade variável: pode ser uma tarefa para gerações, executada por cientistas e historiadores que debaterão, debaterão e debaterão, sem parecer chegar a um acordo nunca.
segunda-feira, fevereiro 01, 2021
CORROSÃO
Nas próprias Humanidades, surge uma disposição contra a tradição e os great books, em nome de uma visão progressista na qual esses livros manifestariam as forças da opressão. Ainda estudam-se os grandes textos, mas sem um bom motivo para isso.
A tendência corrosiva do pós-modernismo: busca-se criar um conhecimento novo a partir da manifestação da própria superioridade diante dos autores antigos estudados, mas, assim, destroem o próprio objeto de estudo. Tudo o que resta é uma hermenêutica da suspeita e um jargão compreensível apenas para experts.
Trecho retirado de uma excelente resenha de Porque o Liberalismo Fracassou de Patrick Deneen. Ao que parece, a grande obra publicada no Brasil no ano passado e que num futuro por enquanto distante, há de ser lida por esse vivente.
quarta-feira, janeiro 27, 2021
COMO O DESTINO SE IMPÕEM SOBRE NÓS, INDEPENDENTE DA NOSSA VONTADE, E COMO DEVERÍAMOS ESTAR A ALTURA DOS DESAFIOS QUE SE APRESENTAM
sexta-feira, junho 19, 2020
DAS VIRTUDES DA PASSIVIDADE
Rachel Cusch em Esboço
segunda-feira, outubro 07, 2019
POR UMA NOVA DISTRIBUIÇÃO DAS CARTAS
Michel Houellebecq em Serotonina.
quarta-feira, agosto 21, 2019
OYNB*
On special occasions – an anniversary, perhaps, or a birthday – I will eat a mouthful of, say, lemon meringue pie. But only as a rare treat, perhaps five or six times a year. Always in the past, after one of my experiments, I would take up the old habits. But not with sugar. It’s not just the long shadow of possible illness. It’s that – like others I know who have stopped – I feel so much better without it. I like knowing that, if I need to, I can hike all day without eating. I enjoy being free of rampaging hunger. Running in the mornings has become a delight. I prefer feeling more serene, less prone to mood swings or afternoon fatigue. My mind feels clearer. I can’t imagine going back. Life is more savory this way.
*One Year No Beer
segunda-feira, abril 22, 2019
U.S.
O útil, o benefício encontrado em extrair do excesso de angústia o combustível quase que único.
As ocasiões de chuva, de cansaço e suor, de quilometragens antes irrealizáveis, de todos os humores, de quase todos os dias, e a realização de algo que soava distante um bocado das condições possíveis estabelecidas pela realidade. Anterior.
Depois, a incoerência em conquistar algo melhor que o esperado supondo que o esperado era de fato pouco ambicioso demais e acabar não dando o merecido crédito.
O reencontro depois de considerável prazo de tempo. O convívio reafirmando o comum em nós, o exercício de uma das jóias da vida: a amizade.
O sol e as absurdas paisagens, o cão, a solidão, mas também a Glória da Perfeição (sic).
Felizmente houve de tudo.
quarta-feira, março 13, 2019
MÃES
That’s my mom. No trouble. Lots of fun. She doesn’t complain, except sometimes, and then she has her reasons — and always feels guilty about it. She seriously loves her children. She likes to have a glass of wine, and to play practical jokes, and is hospitable to a fault. There are always three meals prepared for guests at my mother’s house, or her cabin, or even when she’s visiting. It’s easy to feel welcome when visiting her. This is a remarkable and underappreciated attribute. It’s much less common than it once was, now that so much resentment appears to have built up in the kitchen and the domestic sphere, where the increasingly common warfare between men and women and their respective duties means that the basic tasks of hospitality have been abandoned, where mealtimes are no longer collective acts of celebration, and where people are chronically preoccupied with their individual electronic addictive social hells.
sexta-feira, novembro 02, 2018
WHAT ARE YOU RUNNING AWAY FROM
Cansaço atingindo níveis consideráveis, dores ameaçando surgir, pernas se arrastando, o fôlego sendo exigido até não poder mais, e o pior: o sono capenga, de parcas horas, recheado de pensamentos intrusivos, saudades e remorsos.
São aqueles quilômetros produtos das inquietações e ansiedades gigantescas, cujo efeito é essa insana busca pela estafa, pela exaustão, melhor, pelo esgotamento. Pela miséria sobre o asfalto e a terra, pela dor e o suor, mas sobretudo pelo abençoado e reconfortante resultado posterior: o alívio e a anestesia.
Não é a primeira vez que a corrida serve pra conter um pouco do caminhão de ansiedade que (sobre)carrego. Na realidade, na maioria do tempo, subestimo e acabo não dando o devido crédito ao tanto que esse hábito me ajuda e conforta.
Mesmo sem conseguir traduzir em palavras, cada vez fica mais claro pra mim a resposta para a incontornável pergunta: do que é que eu corro?
quinta-feira, outubro 04, 2018
TIRANIA SOCIAL
É preciso também haver protecção contra a tirania da opinião e sentimento predominantes; contra a tendência da sociedade para impor como regras de conduta, a quem não as aceita, e por outros meios que não as sanções civis, as suas próprias ideias e práticas; para levantar entraves ao desenvolvimento e, se possível, à formação de qualquer individualidade que não se harmonize com os seus modos, e para obrigar todas as índoles a configurar-se segundo o seu próprio modelo.
Trecho desse notável texto de Desidério Murcho no caderno Cultura do Estadão, alicerçado nos escritos de John Stuart Mill.
domingo, maio 06, 2018
DA CULTURA
Daí que os homens e mulheres que se pretendam cultos neste sentido, devem “gastar” a vida na apreensão dessas obras de maior envergadura, que vão de Shakespeare a Platão, de Virgílio a Balzac, de Simone Weil a Van Gogh. Apesar de todo esperneio relativista, são elas a espinha dorsal do cânone universal da cultura. Alguém que tenha passado a vida inteira lendo Paulo Coelho e ouvindo mpb não pode se dizer culto como outro alguém que tenha dominado, mesmo que parcialmente, os elementos formais e materiais do teatro grego antigo. Se o leitor quiser saber a diferença entre o tipo Vinícius de Moraes e o tipo George Steiner, aí está.
Formidável texto do Tiago Amorim no seu A Vida Humana.
terça-feira, maio 01, 2018
UM RETORNO?
Meu isolamento, mesmo que inconsciente, na produção de textos, de um post banal a um conto sem sentido, é difícil de encontrar cronologicamente um instante exato em que tenha tido início. Estabelecer comparações com os textos de autores que leio pode intimidar e tornar mais exigente uma produção própria, mas não foi isso. O reconhecimento como mera porcaria da imensa maioria dos textos que havia criado ou escrito até então, poderia igualmente ser o fator desencadeante desse exílio. Acho que também não. Uma resposta que encontrasse algum suporte na (minha) realidade deveria levar em consideração um grau de exigência maior, um gigantesco desânimo de ordem criativa, e variados outros motivos e fatores.
Um modo de vida mais saudável, física e mentalmente, almejado durante a vida toda e colocado em prática de maneira mais rigorosa apenas recentemente, parece ter naturalmente desencadeado um regresso a certas atividades. Dentre as quais um reencontro com o laptop. Com o seu teclado. Com o que apenas com o auxílio dele parece ser possível realizar.
Primeiro de maio. Me parece uma boa ocasião para um retorno.
quarta-feira, janeiro 24, 2018
SEM TÍTULO*
Seu jeito tímido e uma demasiada introspecção faziam dele uma pessoa estranha aos olhos dos outros. Não fugia – e nem conseguiria - das sua rédeas: sua personalidade simplesmente não comportava atos explosivos. Mesmo assim mantinha uma vigilância ininterrupta sobre si, ou assim dizia aqueles a quem negava o convite a algum gole de bebida alcoólica, alimentos gordurosos ou por ele considerados danosos ao organismo e qualquer espécie de droga. Não era um pregador anti-tabaco ou um ativista em nome do vegetarianismo, ou mesmo mais um que falava mal da maconha e que saia a dar conselhos "por experiência própria", sabia apenas que a ingestão daquilo derrubaria-o emocionalmente, e que não suportaria o inevitável efeito que aquele infeliz erro inevitavelmente descarregaria sobre si.
Olhava para trás, para aqueles cerca de 10 anos em que passou o que ele mesmo referia-se como Inferno, e por vezes mencionava como brutal o período, em outras apenas falava acerca do aprendizado que acumulou e "bola pra frente". Carregava consigo uma amargura, um ressentimento e descrédito próprio que numa simples conversa de uns cinco minutos já se tornava impossível de esconder. Já fazia muito que tudo estava distante, desde os amigos que um dia foram íntimos até as pessoas que ele não dava valor mas que o queriam bem, achavam-no um cara bacana, inteligente, agradável.
Isolando-se, isolando-se, até que mandou um e-mail para a secretária do chefe, avisando que a tarde não iria aparecer pois tinha de ir ao médico. Enfim "iria para a faca", dizia no corpo da mensagem, referindo-se a uma suposta cirurgia a ser realizada. Verdade ou não, nunca mais voltou ao trabalho ou sequer foi visto.
*Texto encontrado numa pasta antiquíssima do HD externo cujo nome é algo do gênero Em Construção. Troquei uma vírgula, algum ponto, inseri uma palavra ou outra. Não deveria, mas resolvi antes de deletar, publicá-lo.
terça-feira, janeiro 23, 2018
DA SABEDORIA EM ESCUTAR OS MAIS VELHOS
I do what not to do to an extreme. I go out jogging. It's not fast running, just that I do it for a long time. I don't follow what typical coaches say about serious runners. No physios, ice baths, massages, tempo runs, heart rate monitors. I have no strong objection to any of that, but I'm not sufficiently organized or ambitious to do all the things you're supposed to do if you're serious. The more time you spend fiddlediddling with this and that, the less time there is to run or waste time in other ways.
Running should be a pastime. All sports should be a pastime. There shouldn't be all this professional stuff.
terça-feira, janeiro 02, 2018
OS MELHORES DO ANO, OU O MÁXIMO QUE EU CONSEGUI ME LEMBRAR
Na literatura, li bastante coisa no kindle, li menos em comparação no papel, mas não houve nenhuma leitura tão significativa que a tornasse a Melhor do Ano ao ponto de nesse momento identifica-la mentalmente. Além disso, muitos insones momentos noturnos foram preenchidos pelo kindle salvador e a memória poderia muito bem trair a ideia de que algo que eu havia lido no inicio do ano na realidade não fizesse parte de meados de 2016 ou até antes. Difícil estabelecer a cronologia correta. Em todo caso, meu grande feito literário desse 2017 que se foi não resta nenhuma dúvida: na segunda tentativa após anos da fracassada primeira, terminei Crime e Castigo. Nova tradução e a boa edição da Editora 34 ajudaram demais na empreitada. Já, meu livro do ano foi de Elena Ferrante. Seu Dias de Abandono rendeu sugestões minhas para que pessoas próximas o lessem, rendeu muito trechos sublinhados, rendeu significativa imersão na abandonada e ferida personagem, rendeu outros livros lidos na sequencia da mesma autora e foi a mais recompensadora leitura desse ano.
Na música, sigo tendo a fiel companhia do meu mui selecionado feed do Mixcloud e da Swiss Classic no Tune In. Por isso não sofri com mais um ano onde a quantidade de álbuns interessantes que ouvi seguiu, conforme o ano anterior, em franco declínio. Todavia, o Arcade Fire lançou o delicioso Everything Now que durante incontáveis vezes foi a minha trilha sonora enquanto descia ou subia a serra, seja pelo sinuoso caminho de asfalto, seja pelo infernal mix de chão batido com cascalho. Bem diferente em estilo e atmosfera ao primeiro e já clássico Funeral. Tão bom quanto.
A série do ano foi indiscutível: Twin Peaks The Return.
Que experiência gratificante foi essa. Pra possibilitar a compreensão necessária da história, tive de ir atrás das 2 primeiras temporadas de 20 e poucos anos atrás, sendo arremessado a uma miscelânea de personagens, tramas, ambientes e situações tão formidavelmente incomuns que não houve como deixar de concluir o enorme número de episódios em um período de tempo recorde. Mesmo o nonsense profundo demais de alguns trechos não tiraram o brilho desse magnum opus Lynchiano.
Um ano de séries, não um ano de filmes. Não devo ter assistido um número tão pequeno desde muito, muito tempo atrás. Conforme a situação da literatura, não é fácil assinalar O Filme de 2017 em letras maiúsculas sem antes chafurdar um pouco na memória. Feito isso, e com um leve empurrãozinho do google, lembrei da atuação fantástica de Jeff Bridges e do seu formidável Hell or High Water que consigo com convicção plena eleger como a grande obra assistida em 2017.
quinta-feira, dezembro 28, 2017
O ANO DO DESAPEGO
Desde um reles microondas antigo, um x-box que nem tão utilizado foi, roupas as mais variadas, um crocs maior que meu pé, passando por camisas de times argentinos que eu nunca havia vestido e jamais vestiria, camisas do meu colorado que antes haviam sido motivo de tanta dedicação em obter e enorme esmero em guardar, chegando, aí sim, as centenas de revistas em quadrinhos que moveram minha infância e juventude de uma maneira que agora parece até difícil de acreditar.
Havia um envolvimento que ia desde o acompanhamento habitual das tramas e histórias até a admiração profunda do item em si, as edições encadernadas, com papel especial, o formato americano, a coleção completa, uma a uma, mês após mês.
Os comics me levaram a aprender html e a construir um site sobre o assunto no fim da década de 90 em meio a conexão discada e a lentidão profunda do tráfego na rede. Um longo tempo dedicado a algo cuja retribuição era meramente pessoal, sem ganhos se não um e-mail contente de algum leitor, um dialogo com alguém tão interessado quanto eu nos instant messengers da época, a satisfação em observar o número de visitantes e até uma coluna própria, pasmem, num site que também tratava de comics e formava uma espécie de parceria com o meu, saudoso, HQ Brasil.
Havia uma paixão (mau traduzindo o sentimento) envolvida nisso que hoje me causa saudade. Uma época que só é feliz quando contemplada pelas lentes embaçadoras da nostalgia, diria Theodore Dalrymple. Acho difícil discordar, mas havia um entusiasmo genuíno que hoje, lamento, não consigo recuperar para qualquer tipo de interesse ou atividade. Será o natural desenrolar da vida adulta? Difícil dessa vez afirmar.
Foi via mercado livre que encontrei um bem aventurado cidadão que tratou de levar a coleção inteira das revistas acumuladas ao longo da vida. A ultima remessa somou quase 30kg em duas caixas, se tornando uma tarefa incômoda inclusive levá-las até a agência dos correios. Uma divida baseada na confiança parcelada em inúmeras vezes e no fundo, o profundo desejo de que as centenas de edições ao invés de ficarem escondidas e acumulando poeira dentro de algum armário, sirvam para agradáveis leituras e possam quem sabe despertar o mesmo efeito que tiveram sobre mim cerca de 20 anos atrás. Acredito demais nisso.