O atraso da publicação desse texto, que reúne mais conteúdo do que deveria, é culpa especialmente da desorganização do seu autor, que em sua defesa alega que os dias foram se somando e a vida, essa danada, não parou de acontecer.
Começamos: início de dezembro último, o Internacional havia se metido numa situação tão horrenda que na rodada final da competição necessitava além da própria vitória, uma reunião de resultados dos seus adversários. Era possível, mas não era provável. O domingo era de muito calor e continha, o tempo inteiro, a aterradora aproximação das 16h, o horário do início da partida. Não tinha intenção de assistir o jogo, mas sabia que seria inviável ficar alheio a ele. O Internacional é, e conforme ficou bem claro nesse dia, algo incontornável na matriz da minha vida. O dia anterior, um sábado igualmente escaldante, tinha marcado o último encontro da turma dos pais da criançada que estava concluindo a pré-escola. De maneira inusitada eu havia me tornado próximo a várias pessoas que teriam seus filhos, em questão de menos de dois meses, estudando em diferentes locais. Uma separação brusca para uma turma que estava junta praticamente desde o berçário.
Não me recordo como se configurou o início da tarde, de alguma maneira fomos até o clube de piscina da cidade sozinhos, minha mulher e eu. A filha menor tinha ido mais cedo com a avó e já havia partido deixado o clube enquanto a mais velha devia estar envolvida noutra programação. Irmos no formato casal correspondia a possibilidade de ficarmos menos preocupados, cada um imerso nos seus próprios interesses ou apenas suportando o tédio embaixo do sol, sem o receio de uma criança cair, escorregar ou até se afogar. Em contrapartida, cada minuto durava o dobro do tempo para passar.
A partida contra o Bragantino teve início enquanto eu fazia exercícios na academia climatizada desse mesmo clube na clara intenção de permanecer o máximo possível alheio à realidade. O relógio devia ter alcançado uns 20min quando eu deixei o lugar abrindo a porta e instantaneamente sendo abraçado por uma sensação térmica que se aproximava dos 40 graus. No caminho até a mesa que abrigava nossos pertences pude observar de soslaio o placar ainda zerado na imensa televisão que transmitia a partida para uma meia dúzia de pessoas que eu não sabia ao certo se torciam contra ou a favor do Colorado. Jamais me atreveria a se juntar a eles. Estava num estado de nervos tamanho que anularia qualquer chance de participar de interações como essas.
Permaneci sentado olhando ao redor e tentando disfarçar o horror interior que eu experimentava. Sabendo que a ansiedade apenas iria disparar ainda mais, não abri o aplicativo de resultados no celular. Desconhecia o placar até o instante que percebi, distante uns 15 ou 20 metros um cidadão com um boné do Inter sobre a mesa comemorar. Fiz gestos perguntando o que tinha ocorrido e deu pra entender a mensagem: tínhamos feito um gol e estávamos conseguindo escapar. Desse momento em diante não consegui permanecer mais de 1min sem virar meus olhos para o iluminado torcedor que acompanhava a partida ouvindo alguma emissora AM diretamente do celular, ao pé do ouvido, mais parecendo um rádio de pilhas do passado.
Suportei o que pude até me instalar de cócoras ao lado dele, que tirou do seu ouvido o aparelho e o deixou sobre a mesa para que pudéssemos ouvir juntos. Descobri que ele também se chamava Leandro e já podia perceber com clareza que, se tudo desse certo, as partidas seguissem com resultados ruins para os adversários e o próprio Inter mantivesse a vitória, aquela tarde jamais seria esquecida.
E deu certo. Deu certo demais, na realidade. Contrário ao bom senso que indicava um domingo arruinante e um futuro ainda pior para o alvi-rubro gaúcho, nos safamos, estamos vivos e, aquele dia, jamais será esquecido.
A viagem até Macéio de carro era o grande desafio das férias. Toda incerteza que um caminho de mais de três mil e quinhentos quilômetros reúne (mais de sete mil ida & volta) realizado dentro de um automóvel em família, me deixou mais apreensivo que excitado. Foram quatro dias inteiros dentro do carro, com um pit-stop em Belo Horizonte na ida, e outros quatro dias inteiros na volta. As paisagens, cenários, pessoas, tudo que iria encontrar em Alagoas e no caminho ficavam um pouco ofuscados pela dificuldade em si da tarefa. Foram inúmeros bons momentos, com outros tantos nem tão bons, como tudo na vida, diríamos. Praias, o Rio São Francisco, o oceano e sua água deliciosa, muito mais quente, além dos lugares. O desafio foi concluído de excelente maneira: nenhum perrengue envolvendo o automóvel, zero sinistros, nem os pneus pareceram ter sido descalibrados. A máquina funcionou de maneira irretocável.
Em outubro de 1996 a banda australiana se apresentou em SP. Na época tinha 14 anos e mesmo assim a vida inteira me pareceu injusto não ter podido ir aquela apresentação no Pacaembu. Nessa época eu respirava AC/DC. Meados de 2010 ou final de 2009, não lembro ao certo, a banda veio novamente ao Brasil. Conhecido como minha época maruja, estava trabalhando sobre o mar, sem qualquer chance de assisti-los. Nessa época eu ouvia com menor frequência o som deles, já tendo expandido a quantidade de gêneros musicais escutados, o hard rock não tinha mais o protagonismo que ele alcançava na minha juventude. Ainda assim, seguia sendo a minha banda. Por ironia, no período onde menos escuto o tipo de som que eles fazem, nesta quarta-feira, dessa vez inclusive acompanhado, enfim irei assistir o grupo que é pra mim a tradução do termo rock and roll, que me moveu como nenhum outro desde que passei a escutar música com alguma regularidade, autores do álbum que eu mais escutei e que o meu toca disco mais reproduziu na vida, o Live in Donnington de 91 ou 92.
E aos 43 anos, sem muitas esperanças de que esse momento se concretizasse, amanhã vou assistir, ao vivo, definitivamente, a minha banda.
Começamos: início de dezembro último, o Internacional havia se metido numa situação tão horrenda que na rodada final da competição necessitava além da própria vitória, uma reunião de resultados dos seus adversários. Era possível, mas não era provável. O domingo era de muito calor e continha, o tempo inteiro, a aterradora aproximação das 16h, o horário do início da partida. Não tinha intenção de assistir o jogo, mas sabia que seria inviável ficar alheio a ele. O Internacional é, e conforme ficou bem claro nesse dia, algo incontornável na matriz da minha vida. O dia anterior, um sábado igualmente escaldante, tinha marcado o último encontro da turma dos pais da criançada que estava concluindo a pré-escola. De maneira inusitada eu havia me tornado próximo a várias pessoas que teriam seus filhos, em questão de menos de dois meses, estudando em diferentes locais. Uma separação brusca para uma turma que estava junta praticamente desde o berçário.
Não me recordo como se configurou o início da tarde, de alguma maneira fomos até o clube de piscina da cidade sozinhos, minha mulher e eu. A filha menor tinha ido mais cedo com a avó e já havia partido deixado o clube enquanto a mais velha devia estar envolvida noutra programação. Irmos no formato casal correspondia a possibilidade de ficarmos menos preocupados, cada um imerso nos seus próprios interesses ou apenas suportando o tédio embaixo do sol, sem o receio de uma criança cair, escorregar ou até se afogar. Em contrapartida, cada minuto durava o dobro do tempo para passar.
A partida contra o Bragantino teve início enquanto eu fazia exercícios na academia climatizada desse mesmo clube na clara intenção de permanecer o máximo possível alheio à realidade. O relógio devia ter alcançado uns 20min quando eu deixei o lugar abrindo a porta e instantaneamente sendo abraçado por uma sensação térmica que se aproximava dos 40 graus. No caminho até a mesa que abrigava nossos pertences pude observar de soslaio o placar ainda zerado na imensa televisão que transmitia a partida para uma meia dúzia de pessoas que eu não sabia ao certo se torciam contra ou a favor do Colorado. Jamais me atreveria a se juntar a eles. Estava num estado de nervos tamanho que anularia qualquer chance de participar de interações como essas.
Permaneci sentado olhando ao redor e tentando disfarçar o horror interior que eu experimentava. Sabendo que a ansiedade apenas iria disparar ainda mais, não abri o aplicativo de resultados no celular. Desconhecia o placar até o instante que percebi, distante uns 15 ou 20 metros um cidadão com um boné do Inter sobre a mesa comemorar. Fiz gestos perguntando o que tinha ocorrido e deu pra entender a mensagem: tínhamos feito um gol e estávamos conseguindo escapar. Desse momento em diante não consegui permanecer mais de 1min sem virar meus olhos para o iluminado torcedor que acompanhava a partida ouvindo alguma emissora AM diretamente do celular, ao pé do ouvido, mais parecendo um rádio de pilhas do passado.
Suportei o que pude até me instalar de cócoras ao lado dele, que tirou do seu ouvido o aparelho e o deixou sobre a mesa para que pudéssemos ouvir juntos. Descobri que ele também se chamava Leandro e já podia perceber com clareza que, se tudo desse certo, as partidas seguissem com resultados ruins para os adversários e o próprio Inter mantivesse a vitória, aquela tarde jamais seria esquecida.
E deu certo. Deu certo demais, na realidade. Contrário ao bom senso que indicava um domingo arruinante e um futuro ainda pior para o alvi-rubro gaúcho, nos safamos, estamos vivos e, aquele dia, jamais será esquecido.
A viagem até Macéio de carro era o grande desafio das férias. Toda incerteza que um caminho de mais de três mil e quinhentos quilômetros reúne (mais de sete mil ida & volta) realizado dentro de um automóvel em família, me deixou mais apreensivo que excitado. Foram quatro dias inteiros dentro do carro, com um pit-stop em Belo Horizonte na ida, e outros quatro dias inteiros na volta. As paisagens, cenários, pessoas, tudo que iria encontrar em Alagoas e no caminho ficavam um pouco ofuscados pela dificuldade em si da tarefa. Foram inúmeros bons momentos, com outros tantos nem tão bons, como tudo na vida, diríamos. Praias, o Rio São Francisco, o oceano e sua água deliciosa, muito mais quente, além dos lugares. O desafio foi concluído de excelente maneira: nenhum perrengue envolvendo o automóvel, zero sinistros, nem os pneus pareceram ter sido descalibrados. A máquina funcionou de maneira irretocável.
Em outubro de 1996 a banda australiana se apresentou em SP. Na época tinha 14 anos e mesmo assim a vida inteira me pareceu injusto não ter podido ir aquela apresentação no Pacaembu. Nessa época eu respirava AC/DC. Meados de 2010 ou final de 2009, não lembro ao certo, a banda veio novamente ao Brasil. Conhecido como minha época maruja, estava trabalhando sobre o mar, sem qualquer chance de assisti-los. Nessa época eu ouvia com menor frequência o som deles, já tendo expandido a quantidade de gêneros musicais escutados, o hard rock não tinha mais o protagonismo que ele alcançava na minha juventude. Ainda assim, seguia sendo a minha banda. Por ironia, no período onde menos escuto o tipo de som que eles fazem, nesta quarta-feira, dessa vez inclusive acompanhado, enfim irei assistir o grupo que é pra mim a tradução do termo rock and roll, que me moveu como nenhum outro desde que passei a escutar música com alguma regularidade, autores do álbum que eu mais escutei e que o meu toca disco mais reproduziu na vida, o Live in Donnington de 91 ou 92.
E aos 43 anos, sem muitas esperanças de que esse momento se concretizasse, amanhã vou assistir, ao vivo, definitivamente, a minha banda.